Poeta do tempo

agosto 28th, 2010

Não sou grande conhecedora dos trabalhos de Alberto Bitar, mas me encanto com o pouco que conheço. A princípio, vejo duas características constantes em seus trabalhos, tanto nos vídeos quanto nos ensaios fotográficos.

A primeira é que quase sempre, senão sempre, Bitar trata do tempo. No ensaio “Efêmeras Paisagens”, por exemplo, ele retoma viagens que fez para a Ilha de Mosqueiro (PA) quando era criança, e o faz de maneira peculiar. É um ensaio recortado “do carro”, no qual suas imagens sem foco traduzem singularmente o efêmero: a estrada que passa, a infância que passa, e a luz de dentro da câmera que passa e forma a imagem.

Essas imagens de cores extremamente saturadas são cheias de melancolia, de incompletude e de saudades. E é essa a segunda característica dos trabalhos de Bitar: as fotografias e os vídeos são muito carregados de sentimento. Através de um jogo de cores, de recortes e de escolha do foco, o diretor explicita diversas sensações, como a melancolia de relembrar a infância. Essas sensações estão intimamente ligadas com o tempo em que se passa a obra (passado ou presente).

“Sobre Distâncias e Incômodos e Alguma Tristeza” segue a mesma lógica dos filmes e ensaios anteriores. O vídeo se passa em um apartamento que tem muito a dizer. Apesar de não ter nenhum ator, os sentimentos implícitos no espaço são mostrados pelos objetos e pela movimentação do tempo externo (representado pela passagem das nuvens) e, principalmente, da luz.

Nos detalhes, como na cadeira de balanço em movimento, é possível perceber que há pouco esse espaço ainda era habitado. A primeira sensação é de ausência, seguida de saudades de um tempo vivido naquele local. Enquanto as porcelanas, os porta-retratos e os cristais ficam ali estagnados, a vida (a luz) passa. É sentir a angústia de olhar pra trás e ver o que já acabou, mas também a saudade de um tempo que aconteceu.

Não sei se o diretor bebe diretamente de fontes da cultura oriental, entretanto, seu trabalho está intrinsecamente ligado a conceitos e idéias japonesas. Há uma filosofia que é baseada na beleza da incompletude e da imperfeição das coisas, o que é muitíssimo próximo do proposto por Alberto Bitar. (Renata Mosaner)

“Sobre Distâncias e Incômodos e Alguma Tristeza” esteve na Mostra Brasil 5.

Ode ao brega

agosto 27th, 2010

A identidade brasileira se tece nas tramas da diversidade. O belo é criado a partir de modelos que alguém propõe. Eis que o brega vem propor os seus modelos e gritar ao mundo que não está nem aí para o julgamento que será feito do que aos seus olhos é belo.

“Faço de Mim o que Quero” corresponde a um pot-pourri desse universo que nos conduz pelas veredas de seus atores, sejam ambulantes, artistas, comunicadores ou simplesmente adeptos do “brega way of life” em Pernambuco.

Recheada de cores, brilhos, descolorantes, pouco tecido e muito secador, a afirmativa visual é a de que ninguém se importa com o olhar de quem não entende ou torce o nariz para essa manifestação, e também não se preocupa em conceituar ou argumentar em sua defesa. Simplesmente é e pronto.

É a exposição da cultura popular que não teme o rótulo do ridículo e usa os meios que lhe são possíveis para mostrar que existe, ainda que lhes sejam negados os espaços convencionais na indústria fonográfica, e que segue criando suas vertentes, como o bregapop e o technobrega.

Petrônio Lorena e Sérgio Oliveira apresentam esse mosaico brega não muito bem amarrado, mas embalado pelo humor cafona que mantém a diversão até o final dos créditos. (Camila Cabello)

“Faço de Mim o que Quero” está na Mostra Brasil 8.

Olhos cheios d’água

agosto 27th, 2010

A animação “20 Anos” trata do amor de uma mulher que é desprezada pelo marido após duas décadas de casamento. A história contada é comum, mas foi abordada de maneira tão cuidadosa que prende o espectador até o último segundo.

Ultimamente, o circuito de animações tem produzido filmes muito emocionantes e delicados. Na hora de emocionar o espectador, alguns personagens de animações chegam a ser muito mais eficazes que qualquer ator experiente. Vendo “20 anos”, meus olhos, em diversos momentos, encheram-se de água.

Fiquei francamente emocionada e comovida pela beleza das cenas, pelo conflito amoroso explorado, pela sensibilidade dos personagens. Tecnicamente, a animação também é impecável. A trilha sonora completou o conjunto harmonioso. (Andressa Paula Senna)

“20 Anos” está na Mostra Latino-Americana 5.

Flash final

agosto 27th, 2010

Após o segundo minuto de “Flash Happy Society”, já era notável a provocação. Repetições desagradáveis me entonteciam e me faziam esperar ansiosamente pela próxima cena. Mas ela não veio. A próxima cena não chegou e, com a ilusão de uma história diferente, morreram em mim as esperanças de presenciar algo menos incômodo.

A sensação de não ter escapatória da realidade me trazia uma angústia inexplicável. Todos aqueles flashes disparando coordenadamente conseguiam por alguns momentos manipular o tempo; o barulho ensurdecedor e estridente aguçava ainda mais a percepção e a concepção de um organismo formado por luzes. Havia agora uma forma expressiva de vida organizada que ainda não havia sido notada.

Pela primeira vez detestei tanto um filme por me mostrar algo que eu não enxergava da maneira mais provocante e irritante que poderia ter sido apresentada. Ao final, logo após classificá-lo como um filme mediano, pude perceber sua grandeza ao me tocar tão profunda e intimamente, a fim de provocar reações tão adversas. Ideias que estavam inconscientes surgiram de repente e, através do choque, pude admirar a forma de abordagem constrangedora dessa experiência.

A exaustão do repetitivo gesto cênico, das luzes acendendo e da vibração do som me levaram a um grandioso exercício de paciência e equilíbrio natural para a preservação de uma mente sana. Ao assistir a “Flash Happy Society”, podemos ser levados à loucura, podemos aderir à causa ou simplesmente fugir da sala de exibição. Não é à-toa que o filme foi o primeiro da série apresentada na Mostra Brasil 4; quem resistiu à pressão viveu e assistiu a mais quatro curtas imperdíveis. (Angélica Mota)

“Flash Happy Society” integra a Mostra Brasil 4.

A beleza e o poder

agosto 27th, 2010

Em ano de eleições, parte das atenções fica voltada para campanhas, candidatos, propostas e votos. Mas fazer um pouco de política e atrair a atenção dos outros de forma a buscar votos (popularidade) não é algo já presente em nosso dia a dia?

O curta “Belas Adormecidas” trata um pouco dessa questão da aparência e a imagem que projetamos aos outros, e também para nós mesmos, diante de um espelho, demonstrando também como, por vezes, nem mesmo nos damos conta disso e até as crianças estão inseridas neste modo de vida.

Em paralelo, há um curta que trata de política e suas condições em uma pequena cidade no Brasil, “Estes” , no qual as imagens durante a maior parte do filme não mostram pessoas, trabalhando, assim, junto aos depoimentos dos habitantes locais para manter o espectador concentrado e curioso pela seqüência.

Como diz um dos depoimentos, o voto é uma forma que temos para exercer o poder. Durante o festival, temos a oportunidade de expressar uma opinião por meio das cédulas de votação, demonstrando nossa satisfação, ou desgosto pelos filmes assistidos. (Nicole Zatz)

“Estes” integra a Mostra Brasil 5;  “Belas Adormecidas”, a Mostra Brasil 6.

Pressuposto e óbvio

agosto 27th, 2010

“A Mulher que Usava Soltas as Mechas dos Cabelos”, de Julieta Amalric, tem apenas uma ação, de modo que o sentido do curta se firma mais pela criação de uma atmosfera do que pelo roteiro em si, ou qualquer outro segmento técnico de uma filmagem.

A ação gira em torno de um recente acidente de carro e chama atenção pela movimentação lenta e agonizante da personagem, uma mulher com ferimentos na cabeça que luta para sair do automóvel. Na sequência, enquanto o espectador se agoniza na cadeira para saber os porquês de tanta dificuldade na expressão corporal, o curta continua sem oferecer uma contextualização do acidente e termina quase como um deboche, que incomoda mais pela estranheza do plano do que pelo que se quer comunicar.

A câmera distante, fria e fragmentada mostra pedaços do que ocorreu em um espaço restrito: uma mata qualquer, um carro velho e sangue. Os aspectos técnicos casam, formam uma proposta, mas não impressionam. É tudo óbvio, exceto a razão de a ação existir, e essa, já na metade, nem como mistério é lembrada.

O filme todo é uma imagem tensa, mas apenas cansativa. São cinco minutos de movimentação empurrada e de enquadramentos quase didáticos: o lugar da ação, o problema, a decisão e o final. Desse modo, o curta se torna longo, apesar da duração, e termina com o carregamento de joelhos magros e infantis dando a última e maior tensão.

A ação convence, incomoda, mas não por uma estranheza poética, e sim pela marca típica de qualquer mistério. A atmosfera criada também funciona, mas é limitada, está presente devido à sensação já esperada de chuva em um lugar desconhecido. É pressuposto e descritivo assim como o título. Desse modo, há algo que chama atenção no filme, mas que não se consagra e não incita, ficando apenas uma pegadinha para quem está assistindo. (Luiza Folegatti)

“A Mulher que Usava Soltas as Mechas dos Cabelos” está na Mostra Latino-Americana 4.

O poder do super-8

agosto 27th, 2010

O que uma câmera de super-8 pode revelar? A pergunta recebe duplo sentido em “Avós”, já que o menino Leo pode ao mesmo tempo filmar novas histórias assim como descobrir aquelas que estavam escondidas na velha câmera.

A história começa no aniversário de Leo, que recebe, de presente, meias e cuecas de suas avós. Do avô, ele ganha uma pequena câmera super-8 e passa a filmar seus familiares, revelando de fato a relação dos avós entre eles mesmos e para com o menino. Alterando momentos de humor com outros de drama, Leo consegue extrair emoção e comoção de seus parentes, fazendo uso de uma pequena câmera, e acaba ainda por cima descobrindo alguns fatos históricos, que comenta com seus avós, gerando uma pequena “birra”. O filme possui essa estética granulada, do próprio super-8, que ganha força na mão do menino, muitas vezes utilizando enquadramentos “feios” que ajudam a compor a idéia de filme caseiro.

Ao fim, o menino pergunta ao avô sobre aquilo que ele estava filmando: vô, como que a gente faz para ver o filme? E o avô responde: não dá mais para ver. Então, o menino se conforma; novamente a única câmera que temos é a do próprio filme, que até ali não fora revelada, pelo menos não explicitamente.

Um filme sobre memória e lembrança que faz com que todo mundo se identifique pelo menos por instantes. (Renan Lima)

“Avós” está na Mostra Brasil 9.

Dennison Ramalho é casado com o terror

agosto 27th, 2010

Confesso que não sou fã do gênero terror. Mas também não sou daqueles que odeiam ou se sentem ofendidos pelos filmes. É apenas um gênero que não me atrai. Só que isso não aconteceu quando assisti a “Ninjas”, de Dennison Ramalho.

“Ninjas” é realmente aterrorizante. E o “realmente” vem de outro fator. Grupos de extermínio formados por policiais não são novidade para ninguém. Eles existem desde os tempos da ditadura militar (e é possível que sejam mais antigos). Os grupos de extermínio atuais geralmente têm ligações com o crime organizado, ou são simplesmente “justiceiros” que matam criminosos e inocentes para satisfazer seu senso de justiça.

No caso de “Ninjas” não fica clara a motivação do grupo de extermínio formado por policiais. É provável que seja o sadismo e a sede de sangue sua motivação maior. O que fica claro no filme é o horror das práticas desses exterminadores e a sentença de morte que carregam em seus olhares. “Policial que é policial namora com a morte”, diz um personagem.

O filme gira em torno de um policial que mata um inocente e passa a ser perseguido pelo seu fantasma. Ele não tem outra opção a não ser entrar para o grupo de extermínio, que encobre o seu crime. Ele é praticamente obrigado a isso. Assim que aperta o gatilho propositadamente (a primeira morte foi “acidental”) e mata uma inocente, passa a fazer parte do grupo da morte. A montagem do filme é articulada para criar expectativa nos espectadores; a cada corte, um novo susto. Durante a projeção, ouvia-se gritos na sala BNDES da Cinemateca.

Muitos podem considerar as cenas de “Ninjas” como “abusivas” ou “apelativas”. Penso que o filme de Dennison Ramalho acerta na medida, equilibrando um filme de terror colado na realidade social cotidiana. Afinal, vez ou outra, tornamos a ler nas manchetes dos jornais denúncias de grupos de extermínio em várias cidades do Brasil. Sua abordagem, que começa num culto de igreja evangélica, surpreende ao nos mostrar um Jesus crucificado (o genial ator André Ceccato), morimbundo, que entrega uma arma saída de sua barriga viscosa ao protagonista.

A cena de tortura choca pela imagens, mas acredito que não seja exagerada, comparada ao terror imposto pelos torturadores às suas vítimas. Algumas pessoas não suportaram e saíram da sala no meio da sessão. Ponto para o filme, que escancara o insuportável que não podemos conceber. Na saída da sessão, vi algumas mulheres chorando. O curta também integra a mostra especial de terror “Dark Side”. Eu o vi na Mostra Brasil 10. Talvez o público do “Dark Side” não saia chorando da sala, pelo contrário.

O terror de “Ninjas” não está apenas na forma, em seu gênero; está também em sua abordagem. E cabe a pergunta sobre o policial que passa a ser perturbado pelos fantasmas de suas vítimas. Seria ele também uma vítima do terror, da violência? Sua saída poderia ser assumir a responsabilidade pelo seu ato, mesmo que “acidental”.

Para esse espectador que vos escreve, “Ninjas” entrou para o hall de filmes preferidos. A projeção me deixou extasiado. Não por sadismo, e sim por “Ninjas” ser um curta eletrizante que prende o espectador sem apelar para fórmulas simplistas, tradicionais do cinema. O terror cotidiano que nos cerca pode ser mais assustador do que uma história de bruxas e vampiros bebedores de sangue. Talvez porque tudo esteja muito próximo de nós. (Renato Batata)

“Ninjas” está na Mostra Brasil 10 e no programa especial “Dark Side”.

Animação e história

agosto 27th, 2010

Em 2010, ano do bicentenário da independência de diversas nações latinas em relação ao domínio espanhol, pode-se encontrar no festival oito dos 26 curta-metragens de 90 segundos cada realizados pelo Instituto Mexicano de Cinematografia em 2009.

O projeto recrutou reconhecidos diretores de animação do país para tratar dos rumores e pequenas histórias ligadas aos movimentos da independência e da revolução mexicana, assim como o próprio cotidiano popular e as figuras heróicas. Desse modo, a série permite uma reflexão interessante sobre o lugar contemporâneo das narrativas históricas do imaginário coletivo e facilmente associadas a um conto de avó, aliadas ao uso da animação como forma.

É interessante notar que temas do passado recente, principalmente ligados a revoluções e ditaduras, ganharam nas últimas décadas destaque na produção internacional. Rumores e histórias íntimas recheiam obras cinematográficas e ressaltam o poder do testemunho. Nos oito curtas mexicanos, ressalta-se, dessa forma, um viés mais íntimo, o que transitava na boca do povo e não a história formal dos livros educacionais.

O uso da animação documental para o retrato histórico permite uma discussão muito além da associação comum entre documentário e verdade, já que a animação não passa pelo universo da tomada, pela imagem-câmera.  Ou seja, a cena é construída sem o caráter da imagem índicial, e está intrinsecamente ligada à visão do diretor sobre o assunto, diferente da imagem de arquivo para filmes históricos que realocam a imagem em um novo contexto. Dessa forma, as narrativas curtíssimas permitem criar uma imagem sobre o que apenas existe no imaginário e não foi registrado, proporcionando a intensidade desejada aos contos que correm junto do universo das tradições.

Os filmes se apresentam, portanto, em formato de “dropes” (também muito utilizado atualmente), variando do tom irônico ao dramático e com traços estilísticos diversos. Apresentam, também, leve atitude lúdica ao derramar em voz-off as informações de cada episódio, apesar de retratar heróis como homens ordinários, de modo a ressaltar defeitos, virtudes e banalidades, e não os feitos propriamente ditos. Assim, os curtíssimos de “Suertes, humores y pequeñas historias de la Independencia y la Revolución” se destacam pelo uso artístico da animação e pela valorização do que é informal em eventos tão marcantes historicamente. (Luiza Folegatti)

“A Arte de Fuga de Frei Servando”, “Proibido Soltar Pipas”, “Fuzilaram a Virgem”, “A Marca do Zorro”, A Bandeira de Flora Russel”, “O Primeiro Ataque Aeronaval”, “Os Enforcados e Francisco Goitia” e  “O Cometa do Centenário” estão na mostra Latino-Americana 3.

Silêncio eloquente

agosto 27th, 2010

Bruno Caticha nos apresenta a uma personagem que tenta, sem sucesso, gravar o silêncio. Proposta interessante, ainda mais quando percebemos que a intenção é exatamente a oposta: mostrar que há diferenças entre poluição e composição sonora ,e que alguns sons sempre surgem.

O problema é que virou moda reclamar do barulho e, mesmo assim, não prestar atenção ao silêncio (se é que ele existe fora do vácuo). Redescobrir o poder dos ruídos como som de fundo pode ir além da ambientação de um filme. No caso de “Projeto Silêncio”, era a trilha sonora e também toda a narrativa. (Belise Mofeoli)

“Projeto Silêncio”está na Mostra Brasil 9.