ÍNDICE CRÍTICA CURTA 2026

Fuga, afeto e autonomia – sobre “O mapa em que estão meus pés” por Thyago Mumu

Os mapas e tempos de “Eles vinham do rio” por Miguel Murad

Memórias e farsas – sobre “Memórias de um amigo” por Miguel Murad

A razão de Patri – sobre “A pele do ouro” por Clarisse Kubrusly

Morto não, livre – sobre “Morto não” por Thyago Mumu

Simone – sobre “Calcário” por Clarisse Kubrusly

Um mergulho para o futuro – sobre “Caldeirão” por Fernando Silva

O terror das pressões sociais e de negar quem se é – sobre “A hora de ir” por Fernando Silva

Dança na madeira – sobre “De algo a coisa alguma” por Jay Paliuco

A natureza da voz – “Meu amigo, o arquiteto” por Amanda Carrazedo

A imagem modular e o passado desvelado – sobre “Pique-Pega” por Heitor Lopes

Velhice insubordinada – sobre “Adrenalina”e “Vim e irei como uma profecia” por Mariana Castro

O Local é o Global (e vice-versa) – sobre “Os arcos dourados de Olinda” por Miguel Murad

Entre a paixão e o resistir – sobre “Baisanos” por Heitor Lopes

Hipnotizados pelo movimento – sobre “Adrenalina” por Lucas Machado Rodrigues

Entre a margem e o mar – sobre “Um oceano inteiro” por Ohana Abreu

Territórios de extração – sobre “A pele do ouro” por Ohana Abreu

O quarto como arquivo da memória – sobre “Os nomes de Margarida” por Ana Farias

Apegos e desapegos da vida – sobre “Morfeu e Caronte” por Yas Souza

Imagens, ritmos e sons – sobre “From something to nothing” por Yas Souza

Difícil de engolir – sobre “DIU” por Maria Antônia Diniz

Amar é bom, mas dói – sobre “Recife tem um coração” por Maria Antônia Diniz

Nó na garganta – sobre “Meu irmão Lyosha e eu” por Yas Souza

Rohmeriano – sobre “A última vez faz muito tempo” por Jordanna Izalberti Amorim

O amor no limiar da memória – sobre “Morfeu e Caronte” por Jordanna Izalberti Amorim

Paraíso – sobre “Comunhão” por Mariana Castro

Sessão “Metanóia à brasileira”: considerações sobre realização de cinema no Brasil e curadoria por Lievin Kiandre de Souza Britez Pontes Miguel

Velhice insubordinada – sobre “Adrenalina”e “Vim e irei como uma profecia”

por Mariana Castro

“… a minha imagem é meio chata, estou sentado na mesma poltrona em que eu estava sentado da última vez, então pode ficar meio monótono, não é?”. Essa é uma das provocações no diálogo entre Jean-Claude Bernardet e Wesley Pereira de Castro, retratados no curta-metragem “Vim e irei como uma profecia”, de Fábio Rogério, na Mostra Brasil 6 – Festa de Gala, e a escolhi para abrir este texto porque o encontro entre os dois personagem pode ser descrito como qualquer coisa, menos monótono.

O título do curta é uma referência aos versos de “Poema do cristão”, de Jorge de Lima, que usa das expressões do campo cristão e bíblico para refletir sobre a finitude e o papel do profeta. Aqui, o profeta se confunde com o poeta: usa da linguagem para criar uma realidade que possa superar os limites do espaço e do tempo. Nada mais natural, portanto, que a representação artística seja o modo como ele tenta apresentar seu mundo, sua forma de ver as coisas, e de traduzir sua mensagem. É o caso de Fábio Rogério, que chamarei de poeta visual. Sua montagem, a partir de trechos de uma live nas redes sociais protagonizada por Jean-Claude e Wesley, constrói uma homenagem póstuma a Bernardet, e também uma obra experimental que nos permite conhecer essas duas figuras falando de seus corpos, e que usam da corporalidade para exprimir seus sentimentos.

O legado do teórico e cineasta é também homenageado na ficção inventiva dirigida por Pedro Goifman. Se no filme de Fábio Rogério a conversa ocorre através da tela do celular, em “Adrenalina” Goifman nos coloca diante de uma entrevista que acontece no centro de São Paulo, no Edifício Copan, com o médico cardiologista, escritor, cleptomaníaco e ciclista Jean-Claude Bernardet. O filme borra de maneira natural as fronteiras entre a atuação e a fabulação da própria vida do cineasta, assumindo para si as dificuldades físicas que ele enfrentava em vida, como a de locomoção, e colocando-as num personagem que desafia a estática do corpo. No fim da sessão a que estive presente (primeira exibição do curta de Goifman), o comentário da mediadora do Curta Kinoforum na conversa com os realizadores resume bem as obras que colocam Jean-Claude em evidência: sua postura transgressora casa perfeitamente com a potência das narrativas selecionadas que retratam uma velhice insubordinada.

A imagem modular e o passado desvelado – sobre “Pique-Pega”

por Heitor Lopes

Em meio a verdades nunca ditas, a imagem se torna refém da presença que uma memória tem ao se tornar presente. “Pique-pega”, na Mostra Brasil 10, apresenta uma jovem que, em meio a uma festa, encontra uma mulher que marcou negativamente seu passado. As duas se confrontam e desabafos são ditos umas às outras. Dirigido por Mia Lima Rocha, o curta parte inicialmente de uma rivalidade para depois construir uma dramatização e uma tensão através da aparição de uma lembrança. É o passado que volta como tormento.

De início, o filme já apresenta para nós uma montagem mais acelerada, um ritmo meio punk eletrónico que se assemelha muito à identidade visual proposta no longa “Rivais” , de Luca Guadagnino, com uma paixão e um erotismo não explícito, uma atração feita simplesmente pelos glimpses de olhares que nos são fornecidos.

Essa abordagem muda quando, no presente, o curta insere o ambiente da festa. Nele, a imagem segue menos um frenesi e toma uma consciência mais controlada. A direção elabora um excelente método de condução da sequência, envolvendo o embate entre as duas personagens não só nas palavras, mas na presença de cena, em um preenchimento para o qual a ótima atuação das atrizes contribui muito, mas que também tem relação com o isolamento de cada uma no quadro.

Conforme os atritos se elevam, a imagem se desloca, a câmera se torna móvel, passamos pela casa da festa como perseguidores, levando a novos ambientes. A encenação de “Pique-pega” cria a atmosfera visual a que a brincadeira remete, elabora uma tensão que deixa o espectador sem saber qual será o desfecho de tudo. Há um certo horror pairando sempre.

“Pique-pega” é um filme que sabe muito bem orquestrar uma modulação da cena e da imagem, acompanhando o drama e a tensão que surgem quando o passado é desvelado.

A natureza da voz – “Meu amigo, o arquiteto”

por Amanda Carrazedo

Ao lançar um filme, se deve cumprir a missão mercadológica de criar uma sinopse: um breve resumo do que se vai passar no filme – sem spoilers, é claro. “Meu amigo, o arquiteto”, na Mostra Latino-Americana 1, faz a sua de maneira não convencional, anunciando sua proposta no início do filme.

Tem algo revelador sobre anunciar suas intenções ao fazer uma obra de arte. Ao se comunicar abertamente com o público, o autor coloca em xeque as expectativas do que vai ser dito e o significado pretendido. Devido às distrações do nosso mundo tecnológico e cada vez mais estímulo-indulgente, a discussão da facilitação do entendimento dos filmes é uma discussão pertinente. Por isso, anunciar nossas intenções pode parecer insegurança criativa. O grande matador da metáfora — será que devemos escolher confiar mais na audiência para entender a obra? Ou será que a força da premissa reside justamente em sabê-lá de antemão?

Até o surgimento do registro escrito, histórias circulavam pela tradição oral, passando de pais para filhos e assim por diante por meio da fala, em cantos, rituais e fábulas. A memória humana era o único meio de guardar o passado. Como essas histórias dependiam da subjetividade, cada narrador poderia adaptá-las à sua maneira.

“Meu amigo, o arquiteto” se apresenta como uma fábula em prosa, contada por meio de animais que se transmutam em seres humanos. Dois ex-pássaros — um que se lembra e um que não de sua origem animal — se encontram e descobrem os laços da amizade.

A história é toda narrada; os sons, vozes e assobios foram feitos pelos realizadores, grandes amigos, que se juntaram para produzir o filme. Os sons gravados têm um papel de preparação da lembrança para o esquecimento; o que está sendo vivido é estabelecido como digno de ser lembrado e vai ser filmado para posterioridade como um cadastro corporal.

Filmado na geografia de Bogotá, o filme questiona (literalmente, pela narração) se, despidos da responsabilidade humana, agiríamos pela nossa natureza e seríamos mais como animais. Nesse cenário, o amigo arquiteto define a si mesmo através dos lugares, construções e cantos distantes da natureza, enquanto aquele que recorda sua origem procura entender a própria identidade em meio aos tijolos da cidade. Ambos os ex-animais entendem que, além de pássaros, outros animais também foram metamorfoseados.

A fábula necessariamente deve ter sempre um ensinamento no final, para concluir sua função moral. No filme isso é diferente: a premissa é clara, mas não seu final, já que os personagens continuam vivendo para além da narração. Ao resgatar a lógica da oralidade como meio de transmissão de memória e registro, o curta-metragem demonstra que a natureza dos transfigurados não se compõe apenas do selvagem, mas daquilo que pode ser compartilhado a partir da união de duas pessoas.

Se você me permite uma anotação pessoal — não que a crítica já não seja pautada por esse princípio: meu avô, José Mateus Filho, falecido neste ano, foi chamado de Canarinho a vida inteira e é lembrado por todos pelo seu assobio. O filme pressupõe que essa é uma das memórias mais importantes a serem lembradas. Concordo.

Dança na madeira – sobre “De algo a coisa alguma”

por Jay Paliuco

Uma árvore riscada para ser derrubada é o prenúncio da destruição em “De algo a coisa alguma”, de Michael Heindl, na sessão Limite 1. Ela está estática, enquanto as outras plantas e folhas ao seu redor se movem com o vento e o tempo. A montagem é acelerada, dias e noites passam; enquanto a árvore central espera sua própria destruição, a marca de “X” na casca fica mais forte. O curta então apresenta a transformação da madeira através do tempo, de muito perto, a partir de 3 mil fotogramas montados de forma contínua. 

Manchas, musgos e casquinhas surgem na árvore e fazem uma dança na madeira. Acompanhamos as transformações naturais que essa árvore sofre. Porém a ameaça iminente permanece. A sua estrutura vai se afinando cada vez mais. Agora, já não são marcas naturais; são machucados feitos pela humanidade. A montagem quadro a quadro constrói uma relação intimista com a “pele” da árvore: revela o movimento do ser vivo que imaginamos estar sempre parado, mas que muda conforme o tempo. Além disso, os fotogramas não são de uma única árvore, mas o filme faz parecer que é.

O final reforça a mensagem de preservação quando apresenta as informações sobre a destruição das árvores que foram fotografadas, de um parque nacional australiano. O curta preserva e dá vida a esses seres que já não existem mais.

O terror das pressões sociais e de negar quem se é – sobre “A hora de ir”

por Fernando Silva

“A hora de ir”, apresentado no programa Carta Branca ao BAFICI, é um terror queer que levanta questões como a autodescoberta e os desejos próprios, e ainda diverte, faz rir. Uma espécie de primo do Sul do literalmente norte-americano “Acampamento Miasma: adolescência, sexo e morte”, coprodução EUA-Canadá recém-chegada aos cinemas. Mas, se o longa dirigido por Jane Schoenbrun se vale do slasher e das histórias de assassinos em série para debater seus temas, o curta-metragem argentino utiliza o mito do vampirismo para ir em uma outra direção.

O filme de Renzo Cozza tem em Patrício seu personagem principal. Ele mora com as duas irmãs e é obrigado a pegar no batente toda noite. Como vampiras, elas querem sangue. Já ele começa a se sentir mal com isso, mesmo que também seja do time de Drácula. Não à toa há uma referência ao longa norueguês “A pior pessoa do mundo”, de Joachim Trier, em uma das cenas, durante um encontro romântico. Nele, o protagonista se surpreende e parece encontrar uma alternativa diante de tal crise. 

O homem cerceado pelas vontades familiares, pela exigência da produtividade diária e pelo capitalismo tem uma epifania ao ser acolhido e ao escutar uma música dos Beach Boys. No teclado, interpretando “Don’t talk (Put your head on my shoulder)”, está seu interesse, uma possível vítima, um rapaz que ainda por cima é doador universal. 

Há vida além do trabalho, das pressões sociais, que incluem as da própria família, e da repressão sexual. Ao exibir a rotina repetida, pedidos reiterados das irmãs e o detalhe da mesma bolsa a tiracolo do personagem, ao fazer piadas, como a do brinco com crucifixo, e filmar sangue espirrado e uma canção ao vivo, Renzo Cozza mostra exatamente isso. Para Patrício (papel de Martín Shanly), basta. A hora de ir é aquela de ser quem se é. Com sol ou sem ele.

Um mergulho para o futuro – sobre “Caldeirão”

por Fernando Silva

Um jovem mergulha nas águas do açude Caldeirão, em Piripiri, município localizado no norte do Piauí. Outro rapaz reclama que o trabalho de suas filmagens ainda não foi inteiramente pago. Diante da câmera, um senhor conta quantos filhos teve e fala dos dois já mortos, um deles de “trovão”. Todas essas histórias se encontram em “Caldeirão”, de Milena Rocha, Weslley Oliveira e Oliveira Júnior, exibido na Mostra Brasil 5. Engana-se, todavia, quem imagina que ele junte alhos com bugalhos ou mesmo enverede sem rodeios pelo cinema experimental. O seu fio da meada é o tempo.

Assim, em uma passagem, um professor leva à sala de aula um veterano habitante da região, um colono radicado na cidade desde os anos 1970, para que conte aos alunos algo da história, a própria e a do lugar. Em outra sequência, na qual três mulheres conversam num bar, em meio a um jogo de sinuca, os temas vão desde desconfianças amorosas, envolvendo traição, ao desejo de aposentadoria. A mais experiente delas já conta com o benefício, mas não senta na condição. Enquanto demonstra ter saudades dos tempos de magistério, ela diz agora estar empenhada na produção de um filme sobre arrebatamento, quando Jesus Cristo buscaria o povo das igrejas. Ao terminar de descrever o roteiro para as amigas, ela o faz de forma divertida e inesperada, com uma virada daquelas. É outro truque deste curta que embaralha imagens da década de 1970, de 2017 e de 2024. Sem isolar nada.

A ideia é sublinhar a importância da memória ao mesmo tempo em que tenta estender o tapete para o futuro. A metalinguagem cinematográfica ajuda na tarefa, claro. O poder contudo vem mesmo é da montagem, do que lembra um ziguezague imagético. Ora mostrando um mito, narrado por um dos jovens diretores, Oliveira Júnior, ora apresentando Elias Araújo, um artista local conhecido por Zé da Folha, embrenhado na mata, assoprando justamente a folha de uma planta, transformando-a em um instrumento musical. Nas cenas, ele usa um boné do São Paulo, o clube de Leônidas da Silva, Canhoteiro, Pedro Rocha, Serginho, Raí e Mineiro que se orgulha do passado e escanteia presente e futuro. Não deixa de ser uma ironia que perpassa o momento, já que o filme não segue estes passos.

Pelo contrário. No ápice, ouvimos uma senhora dizer que, se fosse nova hoje, ela não se casaria. O motivo? Os homens. “Nem todo homem”, ela frisa, mas fala nos que esfolam, batem, discursando a respeito da violência de gênero. “Caldeirão” surpreende, puxa, reflete sobre o processo histórico. E é construído com a receita de unir as pontas do outrora, da contemporaneidade e do porvir. De pensar o futuro. Tudo conectado, do celular do garoto no açude às motos das mulheres do bar. Afinal, como exibe a camiseta que uma delas usa, com imagem de Belchior ao fundo, “viver é melhor que sonhar”. 

Os créditos sobem com outro nome do Pessoal do Ceará: o piauiense Jorge Mello cantando “Trovão”.

Simone – sobre “Calcário”

por Clarisse Kubrusly

Road movie de caminhoneira realizado no oeste paulista, o filme “Calcário” (2026), de Beatriz Ribeiro, compõe a Mostra Brasil 11.

O documentário nos permite acompanhar Simone com um deslumbrante visual de estrada desde Assis até o Goiás. Temos, como espectadoras, uma experiência de viagem em que o filme nos dá a ilusão de percorrer todas as etapas de uma etnografia visual. Acompanhamos conversas alternadas com silêncios longos, que parecem ter durado dias de viagem em apenas 15 min.

Entramos na cabine de Simone que, embora tenha paixão pela estrada, ama seus filhos e lamenta estar tanto tempo ausente, dirigindo e levando carga a serviço do agronegócio — em condições não tão boas, como podemos perceber no filme. Ao conhecer um pouco dessa motorista, podemos quebrar estereótipos e criar imaginários de caminhoneiras possíveis.

Sim, existem caminhoneiras que trabalham para sustentar seus filhos, muitas vezes sem pai.

Sim, existem muitas jovens cineastas no interior de São Paulo, pois a equipe é composta por uma maioria de mulheres que acompanham Simone dentro do seu caminhão. Vemos a motorista em ação no seu ofício específico e fortemente associado ao universo masculino. Em boa medida, também vemos as cineastas em ação, apresentando os desejos e medos de Simone através da rotina da caminhoneira: telefonemas, cuidados pessoais, paradas e entrega da mercadoria. Algo cotidiano para elas e inusitado para o público: uma caminhoneira mãe e um belo road movie de jovens cineastas paulistas.

Morto não, livre – sobre “Morto não”

por Thyago Mumu

Em “Morto não”, de Alex Reis, na Mostra Brasil 3, a afirmação que dá nome ao filme e propõe o tom da obra ganha mais relevância quando entendemos sua origem: o roteiro é uma adaptação livre de um dos capítulos de “As almas do povo negro”, clássico de W. E. B. Du Bois (1868-1963) publicado em 1903. Criar uma ficção a partir do luto biográfico do intelectual norte-americano, com um olhar contemporâneo, transforma a dor da perda de uma criança em um manifesto político de urgência.

Sob o racismo estrutural da sociedade, o filme subverte o sofrimento óbvio. A morte deixa de ser apenas uma tragédia e passa a ser encarada como uma libertação das amarras e violências coloniais.

O diretor recusa o caminho do realismo cru. A hibridagem entre o live-action e a animação não parece ser uma forma de trazer ludicidade ao tema, mas sim para dilatar as sensações e também para facilitar a digestão de um momento duro como o luto. O filme ganha camadas com o uso do stop-motion e da animação 2D, técnicas que funcionam como um amplificador de sensibilidade.

“Morto não” busca uma estética que seja inventiva para tratar de um assunto amargo, transformando-o em um grito de liberdade. A narração em off, que nos guia do nascimento a essa transmutação, também transparece esse grito.

O curta começou um caminho significativo por festivais internacionais: foi exibido no Chicago International Film Festival 2025 e selecionado para o New Orleans Film Festival 2026 (a ser realizado em outubro), entre outros. É o cinema negro contemporâneo brasileiro buscando falar de seus traumas com potência artística.

A razão de Patri – sobre “A pele do ouro”

por Clarisse Kubrusly

“Puta nunca tem razão”, afirma Patri ironicamente sobre a vida que leva em meio à lama do garimpo em “A pele do ouro”, de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo, na Mostra Brasil 8. Por uma questão de sobrevivência, a razão de quem não teve opção passa a ser escrita em um diário. As violências da vida de uma mulher venezuelana em Roraima conduzem o fio narrativo. Sua voz suave e as imagens gentis contrastam com as palavras ouvidas: estupro, morte, sangue e lama. Palavras que compõem o som ao redor e que operam como uma linha de abolição que incide sobre o território e sobre os corpos.

Por outro lado, Patri habita a si mesma ao escrever o seu diário. A direção do filme foi assertiva em mostrar beleza no que se refere ao cuidado com o corpo e com a terra, compondo as paisagens apresentadas como uma pintura. O corpo de Patri é filmado à distância e não vemos o seu rosto. Habitando a tríplice fronteira da floresta amazônica deteriorada (Guiana, Venezuela e Brasil), assim como ela, observamos a sabedoria de quem tem razão.

Os corpos originários e femininos vivem a experiência da lama de maneira avassaladora. A questão do garimpo ilegal entre o povo Yanomami, o desmatamento e a poluição das águas acompanham a desumanização dos corpos. Escapar “sem razão” ainda é uma questão de sobrevivência, de sonho e de projeção de um futuro possível. Ao tomar banho com seu filho criança no igarapé ou mesmo ao caminhar pela paisagem, Patri esbanja elegância e respeitabilidade.

A luta e a denúncia de Patri contra o imperialismo, o colonialismo e o patriarcado confluem com a luta dos Yanomami e de Davi Kopenawa, assim como de outros pajés que estão incansavelmente trabalhando para segurar o céu. “A pele do ouro” mostra Pachamama através de Patri: muito além de uma “simples puta”, a mãe do mundo, uma mulher de razão.