A imagem modular e o passado desvelado – sobre “Pique-Pega”

por Heitor Lopes

Em meio a verdades nunca ditas, a imagem se torna refém da presença que uma memória tem ao se tornar presente. “Pique-pega”, na Mostra Brasil 10, apresenta uma jovem que, em meio a uma festa, encontra uma mulher que marcou negativamente seu passado. As duas se confrontam e desabafos são ditos umas às outras. Dirigido por Mia Lima Rocha, o curta parte inicialmente de uma rivalidade para depois construir uma dramatização e uma tensão através da aparição de uma lembrança. É o passado que volta como tormento.

De início, o filme já apresenta para nós uma montagem mais acelerada, um ritmo meio punk eletrónico que se assemelha muito à identidade visual proposta no longa “Rivais” , de Luca Guadagnino, com uma paixão e um erotismo não explícito, uma atração feita simplesmente pelos glimpses de olhares que nos são fornecidos.

Essa abordagem muda quando, no presente, o curta insere o ambiente da festa. Nele, a imagem segue menos um frenesi e toma uma consciência mais controlada. A direção elabora um excelente método de condução da sequência, envolvendo o embate entre as duas personagens não só nas palavras, mas na presença de cena, em um preenchimento para o qual a ótima atuação das atrizes contribui muito, mas que também tem relação com o isolamento de cada uma no quadro.

Conforme os atritos se elevam, a imagem se desloca, a câmera se torna móvel, passamos pela casa da festa como perseguidores, levando a novos ambientes. A encenação de “Pique-pega” cria a atmosfera visual a que a brincadeira remete, elabora uma tensão que deixa o espectador sem saber qual será o desfecho de tudo. Há um certo horror pairando sempre.

“Pique-pega” é um filme que sabe muito bem orquestrar uma modulação da cena e da imagem, acompanhando o drama e a tensão que surgem quando o passado é desvelado.

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