A memória em festa e em luto em O Rio de Janeiro Continua Lindo, de Felipe Casanova
por Erick Aragão Pradela
É de praxe estar atento às surpresas emocionais que filmes experimentais podem proporcionar. Nem sempre acontecem, mas quando acontecem, ficam gravadas. O Rio de Janeiro Continua Lindo é uma dessas raras descobertas: um curta que facilmente se fixa na memória como experiência estética e política de grande força.
O filme tem um tema doloroso: a chacina de jovens negros, que deixa mães desoladas em luto permanente. A opção por imagens bastante granuladas confere ao curta um aspecto de lembrança, como se tudo fosse visto pelo filtro da memória. Nesse registro, o trabalho assume a forma de uma autoficção: um documentário que se transforma em encenação, a partir da carta escrita por uma mãe ao filho assassinado. O ato de escrever se mistura à recordação dos dias de carnaval, quando ela trabalhava como ambulante. A folia, em sua visão, passa a carregar a ausência, mas também a alegria transformada: no brilho da multidão, ela encontra a lembrança da felicidade do filho.
A montagem é precisa, cortando as imagens no instante certo, sem excessos, permitindo que cada plano respire com o fôlego necessário. É construído em imagens potentes, que comunicam tanto quanto a própria narração da mãe. Em determinado momento, os militares surgem como figuras quase circenses; em outro, assumem a rigidez da ordem, todos alinhados, compondo um retrato da repressão que se impõe diante da vitalidade popular. Essa alternância reforça a tensão entre violência institucional e resistência cultural.
O Rio de Janeiro Continua Lindo participou do programa Work in Progress do Kinoforum, conquistou dois prêmios em Locarno e faz agora sua estreia no Brasil no próprio festival. Um percurso que deixa claro a importância dos festivais como espaços de criatividade e renovação no cinema contemporâneo. O filme articula com clareza a memória íntima e coletiva, o luto e a celebração, a repressão e a vitalidade. É, afinal, uma daquelas boas surpresas que encontramos e que os festivais e o cinema experimental são capazes de oferecer. E que dificilmente se esquece.