A natureza da voz – “Meu amigo, o arquiteto”

por Amanda Carrazedo

Ao lançar um filme, se deve cumprir a missão mercadológica de criar uma sinopse: um breve resumo do que se vai passar no filme – sem spoilers, é claro. “Meu amigo, o arquiteto”, na Mostra Latino-Americana 1, faz a sua de maneira não convencional, anunciando sua proposta no início do filme.

Tem algo revelador sobre anunciar suas intenções ao fazer uma obra de arte. Ao se comunicar abertamente com o público, o autor coloca em xeque as expectativas do que vai ser dito e o significado pretendido. Devido às distrações do nosso mundo tecnológico e cada vez mais estímulo-indulgente, a discussão da facilitação do entendimento dos filmes é uma discussão pertinente. Por isso, anunciar nossas intenções pode parecer insegurança criativa. O grande matador da metáfora — será que devemos escolher confiar mais na audiência para entender a obra? Ou será que a força da premissa reside justamente em sabê-lá de antemão?

Até o surgimento do registro escrito, histórias circulavam pela tradição oral, passando de pais para filhos e assim por diante por meio da fala, em cantos, rituais e fábulas. A memória humana era o único meio de guardar o passado. Como essas histórias dependiam da subjetividade, cada narrador poderia adaptá-las à sua maneira.

“Meu amigo, o arquiteto” se apresenta como uma fábula em prosa, contada por meio de animais que se transmutam em seres humanos. Dois ex-pássaros — um que se lembra e um que não de sua origem animal — se encontram e descobrem os laços da amizade.

A história é toda narrada; os sons, vozes e assobios foram feitos pelos realizadores, grandes amigos, que se juntaram para produzir o filme. Os sons gravados têm um papel de preparação da lembrança para o esquecimento; o que está sendo vivido é estabelecido como digno de ser lembrado e vai ser filmado para posterioridade como um cadastro corporal.

Filmado na geografia de Bogotá, o filme questiona (literalmente, pela narração) se, despidos da responsabilidade humana, agiríamos pela nossa natureza e seríamos mais como animais. Nesse cenário, o amigo arquiteto define a si mesmo através dos lugares, construções e cantos distantes da natureza, enquanto aquele que recorda sua origem procura entender a própria identidade em meio aos tijolos da cidade. Ambos os ex-animais entendem que, além de pássaros, outros animais também foram metamorfoseados.

A fábula necessariamente deve ter sempre um ensinamento no final, para concluir sua função moral. No filme isso é diferente: a premissa é clara, mas não seu final, já que os personagens continuam vivendo para além da narração. Ao resgatar a lógica da oralidade como meio de transmissão de memória e registro, o curta-metragem demonstra que a natureza dos transfigurados não se compõe apenas do selvagem, mas daquilo que pode ser compartilhado a partir da união de duas pessoas.

Se você me permite uma anotação pessoal — não que a crítica já não seja pautada por esse princípio: meu avô, José Mateus Filho, falecido neste ano, foi chamado de Canarinho a vida inteira e é lembrado por todos pelo seu assobio. O filme pressupõe que essa é uma das memórias mais importantes a serem lembradas. Concordo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *