A razão de Patri – sobre “A pele do ouro”

por Clarisse Kubrusly

“Puta nunca tem razão”, afirma Patri ironicamente sobre a vida que leva em meio à lama do garimpo em “A pele do ouro”, de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo, na Mostra Brasil 8. Por uma questão de sobrevivência, a razão de quem não teve opção passa a ser escrita em um diário. As violências da vida de uma mulher venezuelana em Roraima conduzem o fio narrativo. Sua voz suave e as imagens gentis contrastam com as palavras ouvidas: estupro, morte, sangue e lama. Palavras que compõem o som ao redor e que operam como uma linha de abolição que incide sobre o território e sobre os corpos.

Por outro lado, Patri habita a si mesma ao escrever o seu diário. A direção do filme foi assertiva em mostrar beleza no que se refere ao cuidado com o corpo e com a terra, compondo as paisagens apresentadas como uma pintura. O corpo de Patri é filmado à distância e não vemos o seu rosto. Habitando a tríplice fronteira da floresta amazônica deteriorada (Guiana, Venezuela e Brasil), assim como ela, observamos a sabedoria de quem tem razão.

Os corpos originários e femininos vivem a experiência da lama de maneira avassaladora. A questão do garimpo ilegal entre o povo Yanomami, o desmatamento e a poluição das águas acompanham a desumanização dos corpos. Escapar “sem razão” ainda é uma questão de sobrevivência, de sonho e de projeção de um futuro possível. Ao tomar banho com seu filho criança no igarapé ou mesmo ao caminhar pela paisagem, Patri esbanja elegância e respeitabilidade.

A luta e a denúncia de Patri contra o imperialismo, o colonialismo e o patriarcado confluem com a luta dos Yanomami e de Davi Kopenawa, assim como de outros pajés que estão incansavelmente trabalhando para segurar o céu. “A pele do ouro” mostra Pachamama através de Patri: muito além de uma “simples puta”, a mãe do mundo, uma mulher de razão.

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