Amar é bom, mas dói – sobre “Recife tem um coração”
por Maria Antônia Diniz
“Recife tem um coração”, na Mostra Brasil 4 – Rosa Radioativa, aproxima-se do documentário encenado — semelhante a “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira — para construir o perfil de Silvo Silva. O cantor, que ganhou contornos de fenômeno brega nas redes sociais, é o centro de um retrato que se constrói mais pela observação de suas falhas e texturas do que pela exaltação. A voz grave de Silvo contrasta com seus vícios de linguagem, expondo uma mistura de simplicidade e insegurança que pauta sua presença. A geografia marginal do Recife, por sua vez, não é apenas pano de fundo, mas espelho dessa mesma vulnerabilidade.
Revelando particularidades de Silva, o diretor Rodrigo Sena não esconde o artifício de transformar o personagem em componente social. Vemos e ouvimos sua realidade: uma casa onde tudo parece improvisado, onde os espaços se fundem. Nada soa em vão. Mais do que um indivíduo atravessando sonhos não realizados e uma separação recente, Silvo funciona como alegoria de uma certa essência recifense. É um romântico incurável, alguém que processa o mundo pela música, sem abrir mão de uma vaidade característica. Cidade e personagem se fundem entre objetos, casa, ruas e feira.
A narrativa desliza por esses espaços agregando diferentes realidades, sempre atravessadas por uma dose de melancolia. Em vez de apostar no melodrama do luto amoroso, o diretor encontra sutileza para retratar o coração partido de Silvo. Nas entrelinhas, permanece a ideia quase crua de que a cura existe e a ferida cicatriza porque, afinal, o coração é feito de “carne”. Uma constatação física e pragmática sobre a sobrevivência aos afetos.
Assim, “Recife tem um coração” evita tanto a leitura puramente romântica do personagem quanto a idealização da cidade. Seu eixo está justamente no lugar menos óbvio: não na imagem triunfante que o Recife costuma vender de si, mas nas micro-situações de um homem tentando se recompor. O filme acessa o espectador pela coragem de observar personagem e espaço a partir de suas fraturas, nas quais a humanidade aparece em sua forma mais básica.