Apegos e desapegos da vida – sobre “Morfeu e Caronte”

por Yas Souza

Em “Morfeu e Caronte”, na Mostra Brasil 6 – Festa de Gala, um trisal de homens idosos queer lida com a proximidade da morte ao vivenciar o avanço da demência de um dos companheiros. Entre samba, sonho e realidade, os três atravessam os últimos dias dessa união.

Desde os primeiros segundos, há no filme uma sensação de sorriso; tudo parece super bem-humorado quando homens gays ocupam cenários de nado sincronizado, lugares tipicamente reservados para as mocinhas nos anos 1950. O que parece um típico filme divertido e safado do gênero queer logo se transforma no acompanhamento íntimo do processo de demência de um deles.

Mas o mais interessante no filme é o quanto ele é encantador em todos os momentos: do humor à safadeza, até a tristeza. Há uma poética na maneira como enquadra as imagens, nas cores vibrantes e na musicalidade romântica antiga, fazendo-o parecer um relato sem filtros sobre as relações de amor entre aqueles homens.

É o tipo de filme que me faz ter vontade de ir no contrassenso de não ver filmes de sexo com a família e colocá-lo na sala após o próximo almoço em que todos estiverem reunidos.

Há algo nele que dignifica tudo o que a sociedade precisa ainda aprender a dignificar muitas vezes: as relações poligâmicas, o sexo, o sexo gay, a velhice, a morte. Soa como um sonho mesmo, o sonho até mesmo de um mundo perfeito, um luto perfeito, em que há elaboração, aceitação e magia. Saí do filme com a vontade de amar e entregar o mais bonito de mim para os que compartilham essa jornada de apegos e desapegos que é a vida.

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