As estrelas brilham até o apagamento sobre Por Fim Ela Mata Todo Mundo, de Céline Novel
por Gil Robin
Sabe aquele brinquedo com o qual você brincava quando era criança, mas que depois de crescer deixou de dar atenção? O mesmo pode acontecer com uma atriz de cinema: destaca-se na juventude e com o envelhecimento é esquecida. Esse etarismo comercial está perfeitamente retratado no curta-metragem francês de 12 minutos, Por Fim Ela Mata Todo Mundo. A obra conta a história de uma atendente de cinema que já foi atriz e ainda sonha com a sua retomada. Seu nome é Marilyn, evocando a figura da Marilyn Monroe. Essas duas mulheres têm várias semelhanças, sendo a principal a invisibilidade de seus sentimentos diante da visibilidade de suas imagens como atrizes.
O curta tem uma estética geométrica de perfeccionismo similar ao estilo do cineasta Wes Anderson. Os objetos de cena compõem o quadro ordenadamente junto com os personagens que estão centralizados a ponto de, em alguns momentos, olharem para a câmera. Desta forma, no filme há um contraste entre o aparentemente perfeito e o internamente caótico. São escolhas muito interessantes da diretora e atriz protagonista, Céline Novel, que nos transporta para esse mundo desde a primeira cena. O curta começa com uma projeção na sala de cinema em que a protagonista aparece na frente da tela informando a plateia sobre o filme e ali já pode ser identificado o seu desejo de brilhar. Ao longo da narrativa vemos seu chefe, um homem individualista que utiliza a sua posição para ordenar inúmeras tarefas a Marilyn. Ela vai se tornando cada vez mais revoltada, afinal, já foi uma atriz famosa, vencedora do prêmio de atriz revelação de Cannes em 1988.
Sua insignificância é retratada também em uma cena em que aparece na janela de vidro do segundo andar do cinema onde, ao lado, há um poster de um longa-metragem brasileiro chamado Meu Nome é Bagdá. Neste momento, Marilyn está exposta como um produto na vitrine a ser consumido e mesmo assim não está sendo vista. Um outro exemplo, é quando escuta um quiz no rádio perguntando quem ganhou o prêmio de atriz revelação de Cannes em 1988 e a participante não sabe a resposta. Mesmo assim, Marilyn não desiste do sonho. Ela tenta aparecer na foto de uma jovem atriz, mas é retirada como se fosse um objeto que atrapalha a sessão. Além disso, tenta acenar para um diretor de cinema, mas é desprezada pelo olhar egocêntrico dele que só enxerga a jovem atriz. Em vista de tudo isso, o seu desespero é construído de uma forma leve e humorada, com o objetivo de criticar nossas escolhas de valores imorais por meio do riso do espectador, e isso funciona de uma forma excelente.
Ao fundo do palco de angústia, predomina a cor vermelha: cor de alerta, sinal de que algo vai acontecer. Um dos sinais é o poster de um filme com o mesmo título, Por Fim Ela Mata Todo Mundo, em que a imagem mostra uma mulher sombreada segurando uma arma em um fundo vermelho. Conforme a história avança, parece realmente que ela vai matar todo mundo (e motivos não faltam). Essa dúvida, habilmente construída pelas roteiristas Céline Novel e Laurine Lagarde, impacta o espectador com suspense até o final. São diversas reflexões em um curta sobre cinema, mas principalmente a nossa falta de memória do passado e visão limitada do presente. Como já dizia a personagem Norma Desmond, no filme Crepúsculo dos Deuses: Aqueles produtores idiotas. Aqueles imbecis. Não têm olhos? Esqueceram-se de como é uma estrela? Eu vou mostrar-lhes! Vou voltar para lá, juro!
Sensacional! Mas sou suspeito…