Cinema com significativa importância cultural sobre Mostra Brasil 1 – Memórias e Metalinguagens

por Erick Aragão Pradela

Filmes ao mesmo tempo que entretém, reservam memórias. Cada filme guarda em si um gesto de preservação: de uma paisagem, de um rosto, local afetivo ou de uma inquietação coletiva. Ele organiza a memória cultural, transformando experiências particulares em herança comum. É por essa ligação entre criação e lembrança que esta mostra encontra sua alma.

Entre_LatidoseRuídos: Filmado em Super 8, faz da materialidade da película a evocação da memória. Em diálogo com Arlindo Machado, especula o valor que o cinema tem (ou não tem) em sua vida, refletindo a relevância da arte enquanto experiencia e legado.

Homenagem a Kiarostami: Adota a estética do cineasta iraniano para elevar a leveza do humor e o prazer de contar histórias de amigos. Nesse clima, Jean-Claude Bernadet transmite ternura ao falar de Eduardo Coutinho. Dois gigantes do nosso cinema, em uma amizade unida por afeto e lembrança.

Dois Nilos: Reflexão narrada pelo cineasta Afrânio Vital sobre a inexistência de seus filmes e a dissipação do cinema brasileiro. Com elementos performáticos descreve um cinema fantasma: em paralelo com a história oficial do cinema; e com aquilo que deveria existir e não existe mais. Com espaços de cinema ocupados, a mente intensa de Afrânio percorre as ruas sem nenhum reconhecimento, denunciando o esquecimento e a precariedade do patrimônio cinematográfico.

Video Connection: Contraponto à perda, registra a raridade de uma locadora nos dias de hoje. Em poucos planos estáticos, captura o deslumbramento e incredulidade de quem circula no espaço. Ao mostrar que um único filme pode marcar profundamente um indivíduo, reafirma o impacto cultural e afetivo do cinema

Desconstruindo Lene: Em uma brincadeira do ato de fazer filmes e abordagem temática, jovens filmam uma senhora, na presunção de educá-la e extrair excelência a partir disso. O humor surge especialmente pela montagem para revelar sua verdadeira mensagem. É divertido e cheio de energia.

Filme Sem Querer: Confirma o talento de Lincoln Péricles: é um filme bem polido dentro do contexto de sua obra, reiterando o tema da sua realidade presente: do cinema como ofício, paixão e esperança. Na realidade brasileira, onde não há propriamente uma indústria, os personagens negociam o acesso a um edital. Mas de forma metalinguística, Lincoln os filma imersos na experiência, expondo a paixão e o conceito do desenvolvimento de uma linguagem própria, irrevogável e desvinculada de qualquer outra estrutura. Celebra a inventividade e as novas formas de abordar o cinema, elementos essenciais para manter a arte viva.

A mostra cumpre sua proposta: cada curta é uma peça do mosaico onde a preservação e reflexão se entrelaçam. Entre nostalgia, crítica e invenção, constrói-se um cinema que se questiona, se reconhece e se projeta para o futuro.

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