Dança na madeira – sobre “De algo a coisa alguma”
por Jay Paliuco
Uma árvore riscada para ser derrubada é o prenúncio da destruição em “De algo a coisa alguma”, de Michael Heindl, na sessão Limite 1. Ela está estática, enquanto as outras plantas e folhas ao seu redor se movem com o vento e o tempo. A montagem é acelerada, dias e noites passam; enquanto a árvore central espera sua própria destruição, a marca de “X” na casca fica mais forte. O curta então apresenta a transformação da madeira através do tempo, de muito perto, a partir de 3 mil fotogramas montados de forma contínua.
Manchas, musgos e casquinhas surgem na árvore e fazem uma dança na madeira. Acompanhamos as transformações naturais que essa árvore sofre. Porém a ameaça iminente permanece. A sua estrutura vai se afinando cada vez mais. Agora, já não são marcas naturais; são machucados feitos pela humanidade. A montagem quadro a quadro constrói uma relação intimista com a “pele” da árvore: revela o movimento do ser vivo que imaginamos estar sempre parado, mas que muda conforme o tempo. Além disso, os fotogramas não são de uma única árvore, mas o filme faz parecer que é.
O final reforça a mensagem de preservação quando apresenta as informações sobre a destruição das árvores que foram fotografadas, de um parque nacional australiano. O curta preserva e dá vida a esses seres que já não existem mais.