Difícil de engolir – sobre “DIU”

por Maria Antônia Diniz

“DIU”, na Mostra Brasil 12 – Fantasmas In-pertinentes, transforma um primeiro encontro aparentemente banal em um espaço de desconforto crescente. À mesa de um restaurante, Fernanda (Bella Camero) e Igor (Johnnas Oliva) falam a partir de lugares em que não conseguem se encontrar.

Há contraste nas falas, nos gestos e até na maneira como os dois ocupam a cena em primeiro plano. Ela carrega uma segurança que parece incomodá-lo; ele, por sua vez, tenta sustentar uma normalidade que vai se desfazendo conforme a conversa avança. Fernanda não corresponde à figura dócil e silenciosa que costuma tornar uma mulher mais confortável aos olhos dos outros. Sua presença já produz desconforto particular antes mesmo de ouvirmos mais sobre ela. 

O flerte desanda completamente quando ela passa a contar, com uma frieza quase desconcertante, o que viveu durante um procedimento médico. A direção — de Camila Schincaglia e Samira Uchôa — encontra força justamente naquilo que não é mostrado de maneira convencional. Semelhante a “Fresh” (2022), os sons úmidos de mastigação transformam o relato em uma experiência sensorial, nos aproximando da repulsa e do mal-estar que atravessam a personagem. O corpo feminino, mais uma vez, torna-se lugar de intervenção, dor e disputa. 

É quando Fernanda transforma esse relato em ação que o filme encontra sua imagem mais provocadora. Diante da violência performada, Igor reage em silêncio, com uma ereção. A cena concentra a crítica à indiferença diante da dor feminina e sugere algo ainda mais perturbador: a possibilidade de que esse sofrimento não apenas seja ignorado, mas também convertido em objeto de desejo.

A questão é que “DIU” parece confiar pouco na força dessa própria imagem. Ao tornar a reação de Igor tão explícita — ainda que silenciosa —, o filme acaba explicando aquilo que já havia conseguido construir. A provocação é coerente com a narrativa, mas, ao destacá-la no desfecho, Schincaglia e Uchôa reduzem um pouco a ambiguidade que permitia ao horror permanecer por mais tempo.

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