Entre a margem e o mar – sobre “Um oceano inteiro”
por Ohana Abreu
No curta paraibano “Um oceano inteiro”, integrante da Mostra Brasil 5 – Pátria Amada, Cinema, a água não funciona apenas como metáfora, ela organiza o filme. Do sertão ao litoral, da escassez à abundância, seu curso atravessa corpos, memórias e paisagens, criando uma dramaturgia em que deslocamento geográfico e reconstrução subjetiva se confundem. Entre performance, ficção e documentário, as realizadoras Bruna Dias e Carine Fiuza partem da autorrepresentação para alcançar uma experiência que excede o autobiográfico.
O que começa no território íntimo que atravessa solidão, memória e marcas inscritas no corpo encontra uma dor coletiva e um trauma histórico geracional. O filme não transforma, porém, mulheres negras nordestinas em depositárias do sofrimento. O encontro entre elas desloca a narrativa da ferida para a elaboração. A partilha torna-se gesto político e a liberdade deixa de ser abstração para assumir a urgência de realidade a construir.
A presença simbólica de Oxum amplia a água para além da paisagem. Rio, feminino, oceano, afeto e transformação constroem imagens que fazem do movimento uma forma de pensamento, é preciso seguir o curso, mas também reinventá-lo. A paisagem paraibana deixa de servir como cenário e participa da experiência dessas mulheres.
A escolha dialoga com as trajetórias das diretoras. Fiuza, realizadora e pesquisadora do cinema negro, investiga gênero e relações étnico-raciais em obras como “Odò Pupa” e “Yá me conte histórias”. Dias articula fotografia, escrita, corpo e movimento em uma produção marcada pelo afeto. Em “Um oceano inteiro”, essas pesquisas confluem numa linguagem híbrida em que o íntimo não se opõe ao político. O filme pergunta quanto de oceano é necessário atravessar para pertencer novamente a si mesma e responde fazendo da travessia experiência compartilhada.