Entre a paixão e o resistir – sobre “Baisanos”

por Heitor Lopes

O documentário “Baisanos”, na Mostra Latino-Americana 2, acompanha um grupo de torcedores do Club Deportivo Palestino, equipe de futebol formada por palestinos que moraram no Chile no início do século XX. A obra traz um olhar de intimidade e profundidade para o papel que o amor dos fãs tem na transposição de fronteiras e no reforço de uma identidade que se tornou símbolo de luta.

Existem diversos filmes que tratam de futebol e buscam uma atenção para os jogadores ou o time em si. Poucos são os casos em que a torcida realmente é o centro do olhar. Aqui, temos exatamente essa proposta, com os indivíduos que fazem parte da paixão sendo a atração.

Quando analisamos um documentário, é muito comum investigarmos somente a “mensagem” que traz, como se o filme fosse uma reportagem, mas não precisa ser somente assim. “Baisanos” faz mais do que só apresentar uma torcida apaixonada; ela traz sua força e vida para a tela.

Como foi dito, eles são o foco do olhar e isso fica claro na parte do jogo de futebol, no qual a câmera nunca se vira para o campo, mesmo quando acontece um gol. A imagem tem as reações da torcida sempre em evidência, com sua emoção, os cantos, a fraternidade e a amizade.

A filmagem tem um tom mais caseiro, com uma imagem que não busca uma superficialidade no plano, mas uma intimidade, uma câmera na mão que se infiltra nos ônibus, uma construção sonora que carrega somente vozes dos torcedores. Não há espaço para um narrador ou entrevistador terceiro. Aquele espaço é deles.

Ainda destaco que, mesmo quando não existem pessoas na tela, a paixão ainda se faz presente em pátios vazios, nas bandeiras tremulando no mastro. Há um forte orgulho nacional que sempre reforça a localização no Chile, mas também a representação espiritual da Palestina.

Um filme que trabalha sua identidade por meio da intimidade popular e de uma resistência nacional que ultrapassa fronteiras físicas e se materializa na paixão do torcer.

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