Hipnotizados pelo movimento – sobre “Adrenalina”
por Lucas Machado Rodrigues
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
“Autopsicografia”, Fernando Pessoa.
Jean-Claude Bernardet faleceu em 2025, aos 88 anos, vítima de um AVC. No dia anterior à sua morte, antes do choque de abrir o telefone e visualizar as notícias, lembro-me de discutir em aula sua grande obra “Brasil em tempo de cinema”. Livro escrito durante a violência da ditadura militar, em que Bernardet deslocava seu olhar pelas obras do cinema brasileiro, analisando suas tensões e abordagens estéticas. Cabe dizer que são poucos os agentes desse período frutífero de produção artística que permanecem vivos. No mesmo ano, perdemos Jards Macalé. Poucos permanecem produzindo e revivendo suas obras, como Helena Ignez e Júlio Bressane, Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Nesse percurso, lidando com um câncer de próstata e degeneração ocular, Jean-Claude Bernardet permaneceu atuando e dirigindo novos filmes. Dentre eles, os curtas “A cama vazia” (2023) e “A última valsa” (2024), que constroem um universo imagético extremamente experimental e sensível diante da morte. Abordagens em que a imagem envelhecida do ator-poeta-escritor-crítico anuncia um embate entre corpo e reflexo; ou construções fotográficas nuas e cruas do maquinário violento do capitalismo, e seu controle degradado e lucrativo do corpo doente.
Porém, em sua última presença enquanto matéria e linguagem cinematográfica, o ator-crítico torna-se um médico acumulador de bicicletas. Aqui, a matéria e metalinguagem entre vida e ficção desaguam nas potências graciosas do fingimento. “Adrenalina” é realizado pelo neto do crítico. Pedro Goifman, também ator-diretor e, o mais importante, fingidor, que filma com grande carinho o corpo do avô. De certa forma, a aproximação graciosa do elo familiar e seu enquadramento me fazem lembrar do divertimento de Joaquim Pedro de Andrade ao filmar seu padrinho Manuel Bandeira, em o “Poeta do Castelo” (1959). Enfim, hipnotizados pelo movimento, o filme é um zoopraxiscópio que restabelece os caminhos cruciais e permanentes do corpo, memória e imagem.