Mamá, yo quiero mamá sobre Feiura Comovente, de Ultra Martini

por Luan Souza

Ouvindo o clamor por ajuda na voz de Ian Curtis, Mark Fisher percebe em suas letras uma inevitável descrença do futuro, o presente é uma desgraça, então não há nada o que esperar de melhor pela frente. No mundo desgraçado de Ultra Martini, anjos são alçados ao céu que não existe enquanto as ruas de São Paulo servem de fuga para lugar nenhum, o punk entorpece a tela e vive com o desgraçado ali. 

Pela voz de um narrador punk que vive em um precipício confuso quanto ao que é estar vivo, Feiura Comovente esbarra vários conceitos entre si: nada realmente é concreto. Da marra de um punk, que vai sendo quebrada ao compasso que ele admite o mundo para si, ao “quadro que não existe”, pois esse nunca acaba e percorre tudo o que seria fora dele. Nessas coisas mutáveis, vielas são abertas para que certa redenção pessoal tenha para onde ser escoada.

Os comentários e devaneios iniciais de revolta vão se tornando uma presença etérea, que cada vez mais conversa consigo mesma. Essa que se mostra ao que há e sem temor do que pode vir. Vamo tirar a prova de que sou eu mesmo então, conte-me aquela história, se ouve então uma respiração profunda e ali se demarca que não tinha nada a perder ou esconder, já havia acontecido tudo de ruim mesmo.

Daqui tudo soa como outro clamor, que alguém segure minhas mãos de encontro ao fim desse mundo. Mas o mundo não acabou ainda, os anjos são puxados aos céus, pois já não conseguem mais levantar asas e lamentam para uma figura santa sem nome, contam dos pecados da mãe e a morte do homem que esses trouxeram. Dentro desse caminho de transmutações do filme, algo que não se perde é o mundo desgraçado, que não acaba, apenas se torna menos insuportável.

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