Memórias e farsas – sobre “Memórias de um amigo”

Por Miguel Murad

O programa 2 da Mostra Limite em seu resumo sugere que “a verdade desafia o cinema como sina ou como farsa”.

Claramente isso refere-se à presença quase constante e proposital da artificial no repertório linguístico dos curtas da sessão. Dentre as variações deste uso, “Memórias de um amigo”, do belga Olivier Smolders, se sobressai pela inserção total da IA no corpo de sua obra. O filme propõe rememorar um amigo de infância rebelde, que faleceu precocemente. Para tal, Smolders reconstrói conversas, vivências e interesses compartilhados com o amigo a partir dessas ferramentas. Acompanhando as imagens, um voz over grave conjura uma dramaticidade coerente com o sentimento da perda de alguém querido, além de uma tentativa de reconstruí-lo por uma narrativa. Porém, o que há de humano ali é esvaziado pelas imagens que o acompanham.

O repertório é bastante variado, desde lagartos multicolores de quatro olhos, pessoas duplicadas fundidas e “reconstituições” de fotografias do século XIX. Apesar disso, todas são unidas por um mesmo resquício “frankensteiníco” (com o perdão do neologismo) de sua própria origem. Sua extrema fluidez de movimentos e um quê de fantasmagórico nos olhares das figuras que ali aparecem (a inevitabilidade do artificial) são algumas das estranhezas do filme.

Em um mundo onde esses registros se tornam cada vez mais comuns no nosso léxico midiático, das novelas verticais às campanhas políticas, é importante trazer essas viscosidades para o festival. No entanto, em “Memórias de um amigo” esse recurso tem dificuldades de dialogar com a proposta do filme de reconstituir o amigo. O relato, por mais imprecisões que possa carregar, traz em si mesmo a errática natural da construção da memória humana. Já a natureza da imprecisão das imagens de IA é diferente, sendo muito mais um conjunto de pedaços que impreterivelmente se juntam, muitas vezes por associações esquisitas ao olhar. Mais do que descrever um processo de recuperação de um amigo a partir das memórias, o curta é um laboratório para as representações da IA, despersonalizando seu objeto principal.

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