Morto não, livre – sobre “Morto não”
por Thyago Mumu
Em “Morto não”, de Alex Reis, na Mostra Brasil 3, a afirmação que dá nome ao filme e propõe o tom da obra ganha mais relevância quando entendemos sua origem: o roteiro é uma adaptação livre de um dos capítulos de “As almas do povo negro”, clássico de W. E. B. Du Bois (1868-1963) publicado em 1903. Criar uma ficção a partir do luto biográfico do intelectual norte-americano, com um olhar contemporâneo, transforma a dor da perda de uma criança em um manifesto político de urgência.
Sob o racismo estrutural da sociedade, o filme subverte o sofrimento óbvio. A morte deixa de ser apenas uma tragédia e passa a ser encarada como uma libertação das amarras e violências coloniais.
O diretor recusa o caminho do realismo cru. A hibridagem entre o live-action e a animação não parece ser uma forma de trazer ludicidade ao tema, mas sim para dilatar as sensações e também para facilitar a digestão de um momento duro como o luto. O filme ganha camadas com o uso do stop-motion e da animação 2D, técnicas que funcionam como um amplificador de sensibilidade.
“Morto não” busca uma estética que seja inventiva para tratar de um assunto amargo, transformando-o em um grito de liberdade. A narração em off, que nos guia do nascimento a essa transmutação, também transparece esse grito.
O curta começou um caminho significativo por festivais internacionais: foi exibido no Chicago International Film Festival 2025 e selecionado para o New Orleans Film Festival 2026 (a ser realizado em outubro), entre outros. É o cinema negro contemporâneo brasileiro buscando falar de seus traumas com potência artística.