Nó na garganta – sobre “Meu irmão Lyosha e eu”
Por Yas Souza
Em “Meu irmão Lyosha e eu”, na Mostra Internacional 4 – Prato Principal, dois irmãos crescem em uma casa marcada por ciclos de violência enquanto tentam entender a si mesmos e a relação entre eles no meio desse ambiente.
Há uma tristeza impregnada na atmosfera desse filme do Cazaquistão que parece familiar, ainda que vinda de uma cultura tão distinta. O aspect ratio em 4:3, a temperatura de cor, o grão, o constante entardecer, a solidão e a negligência das crianças, que inventam um mundo de aventuras em meio a esse vazio de cuidados, me fizeram sentir dentro do filme. Há toda uma construção nessa combinação de fatores que se traduz na sensação de assistir a uma memória.
Algo que me encanta aqui é a imperfeição das relações de afeto e o amor que reside nas nossas fragilidades. As atuações infantis são outro aspecto que leva a essa imersão: nada soa mentira. Consigo sentir o nó na garganta como se fosse o meu próprio quando Lena procura pelo seu irmão e começa a gritar seu nome; lembro-me de já sentir esse desespero quando era criança e me perdia. Além disso, a decupagem do filme expressa a delicadeza das pequenas ações e momentos: uma mãozinha que toca flores, que se entretém com fios prateados, ou o olhar curioso de quem tenta entender o que ocorre ao seu redor e processa suas próprias emoções.
“Meu irmão Lyosha e eu” também me conecta com lembranças acerca da solidão infantil, em que se aprende a gostar da melancolia que dá uma sensação de companhia. Com elas, vêm fantasias nas quais podemos mergulhar em um mundo bonito. Assim é o cinema, essa brincadeira que leva para outro mundo. O filme me levou para aquele, e fazer cinema é, para mim, algo parecido com o que aquelas crianças faziam: inventar experiências melhores nas brechas de um mundo violento.
A crítica dela é muito sensível, principalmente pela forma como relaciona a experiência das crianças com a própria ideia de cinema. Gostei bastante de como ela percebe a melancolia não apenas como algo triste, mas como uma espécie de companhia e de como transforma as pequenas ações dos personagens em algo significativo. O final também amarra muito bem essa ideia de que criar e imaginar podem ser formas de escapar, ainda que por alguns instantes, de uma realidade violenta.