Nos Pequenos Detalhes sobre Mãe da Manhã, de Clara Trevisan Farret
por Manu Couto
Olhos brilhantes de uma criatura olham para a câmera. Suas veias pulsam como pérolas. Um vazio que parece interminável em seu ventre. O cintilar de sinos que revela peixes dourados reluzentes. Em detalhes se conta uma história – até que o plano se abre para criar constelações.
Para conceber a narrativa mística de um filme sobre uma criatura estelar gigantesca, MÃE DA MANHÃ contempla a riqueza das miudezas. É até mesmo impressionante que um stop-motion, com elementos que parecem ser feitos em tecidos e feltros, adornados com botões, pérolas e outros berloques, aposte tanto em planos-detalhes e close-ups. Ainda assim, é nesses enquadramentos que encontram-se os componentes chave da obra. Ao dar destaque às minuciosidades, como o vento que bate no pelo do ser, o roncar de sua barriga, o acessório de sua orelha, os próprios materiais dos quais o filme é feito colocam-se em evidência, um dos grandes diferenciais deste trabalho. Desde estrelas que são engolidas como doces ao sangue que escorre do guerreiro empalado, voltar a atenção às pequenas coisas é uma decisão que, além de tecnicamente admirável, cria uma atmosfera ao mesmo tempo afetuosa e sinistra, em uma dinâmica que, embora pareça contraditória, transforma a essência do filme.
A proximidade da câmera com a criatura modifica a relação do espectador com ela, já que, ao invés de colocá-la como a besta imponente que é, estabelece uma intimidade. Observamos essa entidade quase como algo fofo, querido – uma sensação de pequenez. Este vínculo com o espectador é colocado em xeque apenas em duas ocasiões: a criação da constelação e a chegada do guerreiro. Nesses momentos a própria posição do ser é colocada à prova – primeiro se mostra pequeno em relação às estrelas e depois grande em relação à pessoa devota. Esse jogo de enquadramentos harmoniza também com a trilha sonora, que concentra-se em sons cintilantes em certos instantes e, em outros, sons misteriosos e monumentais. Todos, enfim, esotéricos, que ajudam a formar o ambiente astral e abjeto, que transporta-nos a um outro mundo, em que é possível a manhã transpor-se em uma criatura.