O amor no limiar da memória – sobre “Morfeu e Caronte”

por Jordanna Izalberti Amorim

Diante do diagnóstico de demência, a velhice de Zito é compartilhada com seus dois amantes: Morfeu e Caronte. Ao evocar as figuras do sonho e do submundo, os diretores Jocimar Dias Jr. e Luiz Ulian — em obra exibida na Mostra Brasil 6 – Festa de Gala — sinalizam desde o princípio que a narrativa caminhará entre a memória e a morte.

A dissolução da trama é conduzida de forma marcante pela direção de arte. É ela quem constrói a atmosfera tátil em que lembrança e realidade coexistem sem aviso, ancorando o espectador na sensação física de um tempo que se esvai.

Nesse cenário, as escolhas de músicas marcam o personagem, inserindo-se com naturalidade na obra, a fim de dar corpo ao que a fala não alcança, nomeando as diferentes fases da vida de Zito e traduzindo em som os sentimentos mais difíceis de verbalizar.

Ao término da projeção, o afeto não se traduz em luto ou piedade, mas na plenitude de quem viveu com intensidade tudo o que pôde realizar. O amor se consolida, em última instância, como um ato absoluto de entrega e cuidado cotidiano.

Essa abordagem reencontra diretamente o legado do teórico e cineasta Jean-Claude Bernardet, que fez da própria velhice e do adoecimento matéria-prima para a criação estética, recusando o vitimismo e a condescendência. “Morfeu e Caronte” segue essa mesma lição ao transformar o diagnóstico de Zito: em vez de capitular diante da tragédia, o filme converte a demência em invenção e potência narrativa.

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