O cinema como arma decolonial sobre A Dita Filha de Claudia Wonder, Picumã e Escorpiônikas – Contramanifesto

por Bruny Derotzi

Uma das maiores discussões dentro do pensamento decolonial é a necessidade de entender e combater as ficções coloniais que estão impregnadas em nossa sociedade.  Uma das ferramentas mais utilizadas para isso é a criação de novas ficções que questionem, tensionem e multipliquem novos imaginários. É possível ver esse movimento na sessão da Mostra Brasil chamada Rosas e Rosários, onde estão presentes curtas que desconstroem e/ou questionam as ficções criadas em volta do universo trans.

O filme que melhor ilustra isso é o curta Escorpiônikas – Contramanifesto, de Bruna Kury, Nisha Platzer e Matheus Mello. Esse documentário performático fala sobre as invenções coloniais em volta do sexo, prostituição, raça e gênero e como podem servir como uma arapuca contra o próprio cis-tema. “É preciso desficcionalizar ou criar novas ficções” diz Bruna Kury enquanto num momento do filme tem uma faca inserida no ânus e rasga bandeiras de países colonizadores com a arma.

O mesmo movimento acontece no curta Picumã, de Sladká Meduza. O filme ficcional conta a história de três travestis que são ligadas por um picumã – cabelo no dialeto Pajubá. Essa ligação que, inicialmente, existe por motivos individualistas, acaba se transformando numa rede onde a união faz a força. São as novas ficções criando imaginários onde travestis unidas jamais serão vencidas.

Já o curta A Dita Filha de Claudia Wonder, de Wallie Ruy, é um documentário que borra o gênero ao se transformar numa auto-ficção do que foi e do que poderia ser. Ele inicia com a diretora (que também protagoniza), contando sobre quando foi visitar o túmulo da Claudia Wonder, uma icônica artista travesti, e viu que seu túmulo tinha o nome que ela tinha renegado. A partir disso, o filme borra o real e o ficcional para discutir o direito à própria identidade e o que constitui o significado de família.

Uma reflexão que levo comigo todo dia dentro desse ofício do audiovisual, é o de lembrar que o cinema é uma invenção colonial que, por muitas vezes, foi usada para fins destrutivos. Não é por isso que devemos deixar de criar, pois é a partir dele que podemos construir novas ficções. E nesta sessão, nos foi dado três exemplos de como é possível destruir ficções coloniais usando as mesmas armas que utilizam contra nós.

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