O cinema contra a indiferença sobre Girassóis, de Jessica Linhares e Miguel Chaves

por Caio Domingos 

Girassóis, de Jéssica Linhares e Michael Chaves, é um daqueles filmes que dizem muito mostrando pouco. Inspirado na morte real de um fiscal de loja em Recife, cujo corpo foi escondido para não interromper o funcionamento do estabelecimento, o curta parte de uma violência banalizada para expor a corrosão da vida pelo trabalho. A força dessa narrativa já foi reconhecida: venceu o Prêmio Canal Brasil de Melhor Curta-metragem do 14º Olhar de Cinema, premiação essa que confirma o alcance de um filme que fala a partir das margens, mas reverbera no centro da experiência coletiva.

No enredo, acompanhamos José Carlos e Glória, um casal de trabalhadores que habitam um espaço que já não cabe corpo, afeto ou descanso: vivem em um lar que se converteu em dormitório, onde o encontro é substituído por revezamento, e a convivência se reduz a corridas, leituras apressadas e refeições frias. É a doméstica sensação de existir sem se reconhecer, de dividir o mesmo teto sem nunca partilhar o tempo. 

A fotografia, assinada pelo também diretor Miguel Chaves, intensifica essa experiência ao alternar enquadramentos encarcerados e planos em parte vazios, metáforas visuais da alma fatigada dos personagens. A câmera se curva como quem acompanha os corpos resignados, mas sem perder a força da denúncia. Onde se esperaria calor, o olhar encontra ausência; onde se sonharia um sol, surgem girassóis que não têm tempo para buscá-lo. A montagem de Vinicius Nascimento reforça essa opressão: acelera e interrompe, alterna longos trechos de labuta com raros instantes de lazer, criando uma cadência que nos faz sentir na pele a respiração curta de vidas sugadas pela produtividade.

Girassóis representa o cinema contra a indiferença. Ele recusa o apagamento e individualiza aquilo que a lógica capitalista insiste em transformar em mera estatística: a exaustão anônima de vidas consumidas pelo trabalho. Cada gesto, cada silêncio, cada imagem evidencia que a verdadeira história é a que transcende a tela e retorna ao espectador. No fim, o curta nos lembra com delicadeza e brutalidade que a vida não pode ser reduzida ao expediente. O esforço para ganhar a vida não pode, jamais, nos roubar a vida que ainda temos.

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