O Local é o Global (e vice-versa) – sobre “Os arcos dourados de Olinda”
por Miguel Murad
“Os arcos dourados de Olinda” com certeza é um dos filmes mais esperados do festival graças à passagem exitosa por diversos festivais nacionais e internacionais (Indielisboa, Bogoshorts, É Tudo Verdade, Janela Internacional de Cinema de Recife e Curta Cinema, entre outros), mas antes de tudo por sua premissa irresistível: como Olinda conseguiu ser a primeira cidade DO MUNDO (em caixa alta mesmo, como o perfil do Instagram do filme coloca) a falir um McDonald’s.
A antecipação pelo filme de Douglas Henrique era sentida na Sala Grande Otelo, já que foi o último filme do programa 8 da Mostra Brasil. Foi quase impossível controlar o frisson da plateia à abertura do curta, contextualizando o período da Guerra Fria e, de forma muito bem humorada, tratando da importância simbólica da abertura do primeiro McDonalds da União Soviética. A narração de Giordano Castro – do texto de Douglas Henrique e Aron Hochman – dão o tom do filme, alternando constantemente entre o Global e o Local, movimento sintetizado pela afirmativa de que Olinda seria o último grande front de batalha da Guerra Fria.
Composto por imagens de arquivo do período, majoritariamente digitalizadas pela produção do curta, ele divide-se em recuperar a disputa política pela prefeitura de Olinda, entre a comunista Luciana Santos e a incumbente Jacilda Urquisa, e retratar a incursão do McDonald’s na tentativa de abrir um restaurante na cidade. Apesar de não estarem diretamente relacionadas, as duas histórias são contadas em paralelo, usando Olinda ora como metonímia do confronto geopolítico Global (à exemplo da mistura das imagens das candidatas com bandeiras dos EUA e da URSS), ora como um embate bastante brasileiro com características marcantes da nossa política local (questões religiosas, asfaltamento de rua, coleta de lixo etc.).
Esse vaivém embaralha as duas narrativas, e somos confrontados com imagens quase consecutivas de Ronald Reagan e uma banda punk-local cantando sobre a rua, reduto da comunidade LGBT, escolhida para abrigar o McDonald ́s. Ou seja, as próprias escolhas de montagem de “Os arcos dourados de Olinda” reproduzem ironicamente as confusões do período histórico que ele mesmo tenta compreender, mostrando a velocidade das articulações quase antagônicas que se tornaram comuns na discussão político-social a partir dos anos 1990-2000’.
No entanto, mesmo com esses embaralhamentos, o filme mantém sua demarcação territorial evidente, que articulada à montagem consegue produzir uma provocação narrativa que sustenta Olinda como seu tópico central de discussão. O interessante é que isso não é feito por meio de um discurso direto, falado, mas imbuído em meio a própria construção da narrativa. Ressalto aqui o trabalho de digitalização das imagens em movimento e dos jornais da época, fundamentais na preservação da memória do período retratado, além de uma narrativa que alterna entre a “voz do narrador” e a voz da população de Olinda, e das protagonistas do embate político.
A grande força do filme é justamente sua capacidade de entender e navegar pelo tom confuso que dita o mundo sem perder de vista situações aparentemente menores – se comparadas ao contexto global –, mas que são seu objeto de interesse principal.