O terror das pressões sociais e de negar quem se é – sobre “A hora de ir”
por Fernando Silva
“A hora de ir”, apresentado no programa Carta Branca ao BAFICI, é um terror queer que levanta questões como a autodescoberta e os desejos próprios, e ainda diverte, faz rir. Uma espécie de primo do Sul do literalmente norte-americano “Acampamento Miasma: adolescência, sexo e morte”, coprodução EUA-Canadá recém-chegada aos cinemas. Mas, se o longa dirigido por Jane Schoenbrun se vale do slasher e das histórias de assassinos em série para debater seus temas, o curta-metragem argentino utiliza o mito do vampirismo para ir em uma outra direção.
O filme de Renzo Cozza tem em Patrício seu personagem principal. Ele mora com as duas irmãs e é obrigado a pegar no batente toda noite. Como vampiras, elas querem sangue. Já ele começa a se sentir mal com isso, mesmo que também seja do time de Drácula. Não à toa há uma referência ao longa norueguês “A pior pessoa do mundo”, de Joachim Trier, em uma das cenas, durante um encontro romântico. Nele, o protagonista se surpreende e parece encontrar uma alternativa diante de tal crise.
O homem cerceado pelas vontades familiares, pela exigência da produtividade diária e pelo capitalismo tem uma epifania ao ser acolhido e ao escutar uma música dos Beach Boys. No teclado, interpretando “Don’t talk (Put your head on my shoulder)”, está seu interesse, uma possível vítima, um rapaz que ainda por cima é doador universal.
Há vida além do trabalho, das pressões sociais, que incluem as da própria família, e da repressão sexual. Ao exibir a rotina repetida, pedidos reiterados das irmãs e o detalhe da mesma bolsa a tiracolo do personagem, ao fazer piadas, como a do brinco com crucifixo, e filmar sangue espirrado e uma canção ao vivo, Renzo Cozza mostra exatamente isso. Para Patrício (papel de Martín Shanly), basta. A hora de ir é aquela de ser quem se é. Com sol ou sem ele.