O vexaminoso espetáculo do eu sobre Mostra Brasil 6 – Ame e Dê Vexame
por Sofia Carlos
A materialidade do desejo transborda nos filmes deste programa. É como se cada obra, à sua maneira, celebrasse a plasticidade das vontades. O enunciado que dá a abertura — “Ame ou dê Vexame” — parece indicar apenas uma via em duas opções: a do exagero. Os filmes aqui reunidos caminham, dentro de suas particularidades, guiados por um sentimento obsessivo que molda seus desejos plásticos, embora sempre de natureza orgânica.
Em Americana, uma suposta “talaricagem” leva cinco amigas à delegacia. O conflito se sustenta por uma enxurrada de referências da internet que não apenas constroem uma identidade para o filme e para as personagens, mas também materializam as inquietações que atravessam a narrativa. Já em Mensagem de Sergipe, essa materialização aparece nos áudios que, comparados às imagens, criam um ecossistema próprio, no qual flui a ironia cativante das mensagens de aniversário enviadas a Jean-Claude Bernadet. O charme orgânico desse gesto é curioso: não se percebe claramente os limites entre personagens e pessoas. Essa indefinição reitera a dimensão performática que confere identidade ao filme — e, de certo modo, a todo o programa. Não à toa, Americana também ecoa em Nati Natini Natiê Lohanny Savic de Albuquerque Pampic de La Tustuane de Bolda, mais conhecida como Danusa Deise Medly Leona Meiry Cibele de Bolda de Gasparri — afinal, até que ponto Leona Vingativa é performance ou pura realidade?
Em Quase Trap, a identidade também se materializa, mas de forma estilizada. O filme brinca com a aparência das coisas: Tiunai, querendo provar que é confiante e descolado, encontra espaço de conforto para atuar o que lhe falta, a pose. Isso basta. Sem moral da história, o gesto devolve ao espectador a superficialidade das vontades, sem necessidade de lições. Ele quer ser descolado; o filme também. Ambos alcançam esse objetivo ao assumir o caráter performático do desejo e correr com ele.
Já em Janete, a protagonista, mergulhada na solitude, encontra conforto em um robô aspirador de pó. Em O impulso e outras aversões, a atração entre dois personagens cresce aos poucos em um supermercado. Aqui, a materialidade está no entorno: a falta abre espaço para a possibilidade, e a performance surge em paralelo ao cotidiano. Janete encarna uma nova obsessão — o plástico e o motor que animam a engrenagem — sendo engraçadinha o suficiente para preencher os vazios das extensas imagens da casa de Cíntia. Do mesmo modo, no supermercado, tomates e a ala de frios torna-se matéria-prima para que o tesão se materialize no próximo corredor.
Tudo retorna, então, à afirmação “Ame ou dê Vexame”. Pois são justamente esses filmes que dão espaço ao banal para se tornar exagero, às vontades para se mostrarem efêmeras, ao humor e ao formato para se sobressaírem. Onde um tênis vira moeda de troca, um filme pode se chamar Americana, e um simples áudio de feliz aniversário termina em gozo.