Os mapas e tempos de “Eles vinham do rio”
Por Miguel Murad
Segundo filme do primeiro programa da Mostra Limite 1, “Eles vinham do rio”, de Juan Benitez Allassia, de cara nos mostra uma disposição diferente de tela. O normalmente veríamos a imagem em movimento cheia é dividido por duas faixas acima e outra abaixo, sendo esta responsável por abrigar textos que correm da esquerda.
Inicialmente, lemos uma fábula sobre um jovem deixado para trás nos longínquos tempos da colonização; em movimento, um fluxo de luz lampeja a imagem e contrasta com a objetividade da palavra. Esse procedimento se repete ao longo do curta, mas de forma móvel. Quando a imagem se torna mais sóbria, relatando o presente mais objetivo do retorno do Pescador à sua vila natal, o texto (ou também a narração em off em sua língua nativa) aparece para embaralhar esta objetividade.
O que há de constante é a persistência dessas aliterações. A temporalidade insiste em se espiralar, retirando as fronteiras entre presente, passado e futuro, mesclando-as todas em um grande momento de tela. É como se Allassia propusesse, por meio de uma nova cartografia da imagem e da linguagem, uma nova forma de experienciar o tempo, claramente inspirada na maneira como ela é sentida pelos povos originários argentinos, mas propondo-a também enquanto uma forma mais geral de observação do mundo, por meio de uma outra polaridade.
Em sua conclusão, “Eles vinham do rio” mostra o Pescador se reencontrando com sua gente em volta do fogo. Ali, o que poderia ser um ritual cosmetizado e exagerado é reduzido ao silêncio e ao respeito por essa energia, que contagia todos ao seu redor. Fogo que aqui se apresenta enquanto uma linha de fuga, formando uma grupalidade, mas indicando uma possibilidade de transgressão a partir da própria forma de estar no mundo. Quando a imagem sai, o texto volta, nos indicando que o menino do início fica na América, mas uma nova, diferente daquela dos livros, ressignificada pelo contato com uma perspectiva díspar não apenas falada, mas experienciada no corpo da linguagem do curta.