Paraíso – sobre “Comunhão”
por Mariana Castro
O mês da visibilidade lésbica é celebrado em agosto, marcado por duas datas: os dias 19 e 29. A primeira data remete ao Levante do Ferro’s Bar, em 1996, marco na luta contra a censura do periódico “ChanacomChana”, difundido no espaço central para a formação do movimento lésbico que foi o Ferro’s Bar.
Historicamente, os bares funcionam como espaços fundamentais para a sociabilidade da comunidade LGBTQIAPN+. Contudo, o estabelecimento desses espaços como zonas seguras segue violado por episódios como o ataque no Brejo Bar, na Zona Sul do Rio de Janeiro, motivado por lesbofobia durante um evento que celebrava o mês de agosto como mês da visibilidade lésbica.
Apesar de não estar ambientando em um bar, “Comunhão”, na Mostra Brasil 10 – Flor de Clitória, me parece uma ode ao que esse espaço (aqui, especialmente, o lésbico) representa: a celebração ao encontro e ao afeto entre mulheres. O curta nasce do desejo de subverter narrativas lésbicas que associam suas vivências às dificuldades que enfrentam, ao preconceito e à tragédia, como a própria diretora Pétala Lopes pontuou durante a sessão a que estive presente no 37º Curta Kinoforum.
Embora escolhido o dispositivo documental, ao reunir um grupo de amigas com mais de 50 anos para uma viagem de fim de semana, o filme coloca de lado o formato convencional de entrevista e nos convida a uma conexão mais próxima e afetiva com essas mulheres. Testemunhamos quase em primeira pessoa as confidências do grupo sobre seus primeiros amores e sobre se descobrir sapatão. Participamos de seus flertes e dançamos junto delas durante uma cena carinhosa, em que organizam seu próprio São João Sapatão.
Em uma de suas breves aparições em cena, Pétala lança uma pergunta sobre religião ao grupo: “Sapatão vai pro céu?”. A resposta é imediata: “[sapatão] vai para o paraíso!”. Saí da sessão acreditando, afinal, que o paraíso religioso possível de existir é um sítio isolado, lotado de sapatões vivendo plenamente os seus amores.