Por mais mirabolante que seja o medo, o amor persiste: uma crítica da distopia cearense afetiva de O Medo Tá Foda, de Esaú Pereira

por Estefane Araújo Barguil

A animação “O Medo Tá Foda” apresenta Revo que, após roubar dindin de um posto de gasolina em um Ceará distópico coberto por areia, se depara com três figuras pecualires que lhe dão diferentes perspectivas de vida: Biri, Fran e Daisy. Biri, um velho com uma prótese no braço que pedala de chinela, carrega a responsabilidade da vida como um chapéu acabado; Fran, uma memória em meio a névoa, tem medo de muitas coisas, mas reconhece a beleza da saudade e a finitude das coisas; e Daisy, um desertor da guarda que se esconde em um parque de diversões abandonado para fugir das responsabilidades. Os três se apresentam como projeções de Revo e de suas preocupações.

E então, temos Revo, que precisa voltar para sua filha com o dindin, considerado um artigo de luxo no calor escaldante do deserto, mas é perseguido por drones do posto e, também, pelo medo, ansiedade e responsabilidades da vida, fortemente associadas ao futuro de si e de sua filha, por meio de closes na bolsa térmica onde está o doce e de diálogos com os outros personagens. 

O próprio design de Revo fala sobre os sentimentos do personagem. O casaco desproporcional, que mais parecia adequado ao frio, reforça a ideia do peso da responsabilidade que Revo carrega. As sandálias kenner, exageradamente grandes, também contribuem para o visual contrastante – e ao mesmo tempo – deslocado do personagem. Seu corpo, como ele mesmo afirma em diálogo com Daisy, é feito por borboletas que, ansiosas, tentam fugir. Essa informação intensifica o significado visual presente no casaco, como se ele também se tornasse um ponto de tensão entre Revo e sua ansiedade.

Apesar disso, principalmente no encontro com Fran, o curta-metragem é extremamente leve, afetivo e cotidiano, que permite a imersão do espectador. A título de curiosidade, é interessante perceber como a balaclava de Revo, apesar de ser uma máscara em que ele se esconde, também lembra um saco de dindin, objeto o qual ele protege e se torna parte da identidade afetiva do personagem. Como uma ficção científica com forte identidade cultural da periferia cearense, “O Medo Tá Foda” alinha uma estética marcante e construção de mundo única para falar do corre corre do dia a dia com sensibilidade, por meio de um sentimento tão conhecido e tão impactante quanto o medo, mas também, tão forte e necessário quanto o amor.

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