Quando o bizarro vira comum sobre Internacional 9 – A Parada dos Monstros
por Caique Lima
Ao assistir cinema de gênero contemporâneo, é importante lembrar que exercícios bizarros praticamente nasceram junto com a forma de arte – e podem ser datados há mais de um século atrás, com Uma Noite Terrível de George Méliès em 1896 – e evoluíram não só em forma, mas em conteúdo. É isso que a mostra Internacional A Parada dos Monstros busca representar com suas narrativas modernas bem adequadas ao zeitgeist, que variam do luto que leva um casal idoso a adotar bebês reborn a criaturas sobrenaturais que se alimentam de lixo, trazendo um comentário ecológico incomum ao gênero de terror.
É bem condizente às suas ambições narrativas que o filme tcheco Maternando se inicie com a cena de um passarinho alimentando seu filhote. O curta segue um casal idoso que se apega muito à nova adição da família – um bebê reborn – pelas dificuldades que tem em lidar com a ausência de seu filho. Os olhares de julgamento que cercam a mãe se intercalam com passagens surreais onde ela se une à outras mulheres grávidas em danças no meio da floresta.
A seguir, o Indonésio Sammi, Que Consegue Separar suas Partes do Corpo compartilha mais do que o título com outro longa contemporâneo do sudeste asiático, Tio Boonmee que pode recordar das suas vidas passadas. O projeto segue a mãe do jovem Sammi em busca dos órgãos que ele, de forma altruísta, distribuiu a outras pessoas necessitadas em vida. Existe um sentimento de luto atrelado à espiritualidade muito único aqui, e as escolhas estéticas e formato episódico acompanham perfeitamente.
O espanhol O Sangue entende muito bem a juventude com uma narrativa satírica que retrata a forma como o acontecimento de um jovem chorando sangue seria interpretado em um contexto real permeada com toda seriedade. Se ancorando na inteligência de seu texto, o curta de apenas 12 minutos ainda possui espaço para explorar uma fotografia estática que acompanha a pacatez da pequena cidade mesmo após o milagre mudar a vida do garoto no centro de tudo.
Cais de Sisowath, curta francês que se passa em um cais cambojano homônimo ao título, segue um casal ansioso para seu primeiro encontro até que a garota se transforma em uma criatura sobrenatural após um encontro com uma bruxa. Essa criatura consome o lixo do cais, e está fadada a se alimentar do sangue de outras pessoas para sobreviver, subsequentemente as infectando e mantendo o espírito do monstro vivo. O curta mescla animação com planos de fundo reais e cria uma estética bem condizente às ideias que quer passar sobre terror ecológico.
O último curta da sessão, o húngaro O Espetáculo, segue um garoto com um poder anormal: ele levita quando exposto à luz. Uma equipe de filmagem é chamada para registrar o fenômeno, mas os nervos do garoto o impedem de replicar seus poderes em frente às câmeras. É um filme que sabe muito bem demonstrar a força da liberdade das suas ambientações externas e retrata bem o domínio que as redes de comunicação de massa têm sobre a população.
Em suma, todos os projetos demonstram entendimento da força do cinema de gênero como comentário social e evocam narrativas específicas às vivências de seus idealizadores, seja nas referências pessoais de cada um ou em histórias intrínsecas a cada país. A pluralidade de abordagens estéticas apenas enriquece a experiência da sessão e escancara a importância de explorar o cinema do mundo todo, em especial quando se trata de exercícios bizarros como o desta mostra.