Rohmeriano – sobre “A última vez faz muito tempo”
por Jordanna Izalberti Amorim
Há filmes que se utilizam da ausência para um êxito maior, e “A última vez faz muito tempo” — na Mostra Latino Americana 2 – Geografias do Trauma — é um deles. A memória vaga da saudade é marcada por um êxodo provocado pela crise na política da Venezuela, que separa um casal e deixa, no lugar de um só, uma cidade inteira sem o mesmo significado de antes.
Na esteira do que Paulo Emílio Salles Gomes reconhecia no cinema latino-americano (a impossibilidade de separar forma e condição histórica), o curta venezuelano — dirigido por Santiago Martin — recusa o sentimentalismo exacerbado e converte a saudade em fotografia.
Acompanha-se o crescimento do rapaz que fica. Junto, o espectador amadurece também, compreendendo a metáfora sutil que a trama traz. Anos depois, ela retorna. O reencontro não desfaz o tempo perdido, apenas revela a falta de escolhas e o impacto político que os separou.
Resulta um retrato do exílio afetivo que é ainda retrato não somente da saudade de um indivíduo, mas também de uma nação.