sobre Fronteriza, de Rosa Caldeira e Nay Mendl

por Maria Eudóxia Carvalho

Fronteriza é uma história de corpos que se buscam no tempo, através das linhas traçadas pelo colonizador, por entre divisões arbitrários de gênero, empurrados ao êxodo urbano por um sistema econômico profundamente desigual, abissal como as cataratas do Rio Iguaçu, mas talvez não tão forte quanto elas.

Nesse curta metragem, que atravessou fronteiras e tempo e refletiu sobre muitos corpos em sua realização, acompanhamos a história de Luca, jovem periférico transmasculino, na sua busca pelo pai, que deixou a família para trabalhar em Foz do Iguaçu e nunca mais regressou. Luca é apresentado em planos médios ou primeiros planos e em cores quentes mas sóbrias, com sua hand-cam em punho. Seu encontro com Diego, jovem paraguaio de origem guarani, durante o trabalho no porto do Rio Iguaçu é criado com os mesmos planos e cores e nos convida à aproximação e empatia, que também os envolve rapidamente. Diego acolhe e situa Luca nesse universo novo. 

Surgem as cataratas filmadas em contre-plongée e em cores ainda mais sóbrias, planos abertos como veias fortes (quem sabe “as veias abertas da América Latina”?). Sua espuma tão branca quanto eterna introduz essa terceira personagem que atravessa a narrativa e a transborda com a delicadeza da tradição oral, que Diego traz, pela memória das histórias que sua avó guarani lhe contava: o Rio Iguaçu. 

Nos planos-sequência sobre a Ponte da Amizade os dois jovens fluem velozes nas bikes, livres no embalo do Rio e da avó (ou seria da Avó-rio?). No entanto, o perigo está à espreita: o homem branco prendeu o Rio em uma jaula. Após essa metáfora anunciada na história da avó de Diego, o mundo se fragmenta em várias imagens estáticas da construção da hidrelétrica de Itaipu. O contraste fica evidente: enquanto as fotos do álbum de família de Diego nos foram reveladas pelas mãos e pelo olhar de Luca, os planos da construção da hidrelétrica são fechados e obedecem à visão distanciada do jornalismo frio e chapa-branca. O Rio foi enjaulado. 

Força das águas, força das palavras, os amigos caminham para descobertas da casa abandonada pelo pai e talvez de uma origem comum. Eles registram seu percurso no território e o banho de rio filmando com a hand-cam de Luca. A intimidade nesses planos fechados, tremidos parecem dizer que a felicidade não mora em cenas estáticas, planejadas. Ao contrário, ela se coloca aqui fluida como um banho de rio, em águas calmas, talvez cálidas, um abraço da Avó-rio.

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