Subjetividade periférica em imagens: um retrato geracional sobre Rolês, de Nathalia Cristina, Matheus Alcântara, Fernanda Lima e Madson Pomponet
por Aline Fátima
O curta dirigido por Nathalia Cristina, Matheus Alcântara, Fernanda Lima e Madson Pomponet, produzido no âmbito das Oficinas Kinoforum, apresenta um retrato potente das expressões culturais da periferia paulistana, tendo como fio condutor as trajetórias de Ricardo Paiva, DJ e educador, e Felipe Cesar, pintor e pixador. Ao colocar em evidência o funk e a pixação, o filme reivindica a legitimidade dessas linguagens como manifestações artísticas de grande impacto e relevância, reconhecendo-as como atos de resistência frente à marginalização histórica que atravessa a vida de jovens negros e periféricos.
A estética construída pelos realizadores é marcada pela proximidade com o videoclipe e pelas referências às redes sociais, dispositivos fundamentais para a circulação de imagens e sons na contemporaneidade. Entre planos da zona sul de São Paulo, registros do metrô e cenas do cotidiano, o filme compõe um mosaico que explicita como o espaço urbano se torna suporte e palco da criação periférica. A direção de fotografia de Fernanda Lima e a direção de arte de Nathalia Cristina conferem densidade visual às falas dos personagens, por meio de intervenções e efeitos visuais em diálogo com os cenários e paisagens do território, equilibrando a força documental com uma dimensão estética que potencializa as narrativas.
Felipe, ao narrar sua vida dividida entre a pintura de muros e a pixação, evoca o percurso de outros artistas como Link Museu, que atravessaram o território da marginalidade até serem incorporados pelo circuito institucional das artes. A comparação revela a dimensão estrutural das barreiras enfrentadas: poucos, como Link, conseguem “furar a bolha” e alcançar o mercado formal, evidenciando o quanto o racismo e a desigualdade limitam a circulação de corpos negros. Já Ricardo Paiva destaca-se pela clareza com que articula o funk como expressão de uma “subjetividade periférica”, conceito trabalhado por Tiarajú Pablo. Seu discurso histórico e político dimensiona o funk não apenas como música, mas como prática de afirmação identitária e de enfrentamento às violências simbólicas que recaem sobre a periferia.
Assim, o filme se inscreve como documento geracional. Os personagens, hoje na casa dos 30 anos, cresceram nos anos 1990 experimentando a rua não apenas como espaço de lazer, mas como território ético, estético e político. Ao trazer suas vozes, o curta desloca estigmas e produz imagens necessárias sobre a diversidade periférica. O fato de ser realizado no contexto do projeto KinoAção, em parceria com Ibiralab e Academia Carolinas, amplia ainda mais seu alcance: trata-se de cinema produzido por corpos periféricos, em diálogo com seus próprios territórios. Nesse sentido, o curta não é apenas sobre os rolês, mas é, ele mesmo, um rolê audiovisual de resistência, que reivindica o direito à memória, à arte e à narrativa.