Um mergulho para o futuro – sobre “Caldeirão”

por Fernando Silva

Um jovem mergulha nas águas do açude Caldeirão, em Piripiri, município localizado no norte do Piauí. Outro rapaz reclama que o trabalho de suas filmagens ainda não foi inteiramente pago. Diante da câmera, um senhor conta quantos filhos teve e fala dos dois já mortos, um deles de “trovão”. Todas essas histórias se encontram em “Caldeirão”, de Milena Rocha, Weslley Oliveira e Oliveira Júnior, exibido na Mostra Brasil 5. Engana-se, todavia, quem imagina que ele junte alhos com bugalhos ou mesmo enverede sem rodeios pelo cinema experimental. O seu fio da meada é o tempo.

Assim, em uma passagem, um professor leva à sala de aula um veterano habitante da região, um colono radicado na cidade desde os anos 1970, para que conte aos alunos algo da história, a própria e a do lugar. Em outra sequência, na qual três mulheres conversam num bar, em meio a um jogo de sinuca, os temas vão desde desconfianças amorosas, envolvendo traição, ao desejo de aposentadoria. A mais experiente delas já conta com o benefício, mas não senta na condição. Enquanto demonstra ter saudades dos tempos de magistério, ela diz agora estar empenhada na produção de um filme sobre arrebatamento, quando Jesus Cristo buscaria o povo das igrejas. Ao terminar de descrever o roteiro para as amigas, ela o faz de forma divertida e inesperada, com uma virada daquelas. É outro truque deste curta que embaralha imagens da década de 1970, de 2017 e de 2024. Sem isolar nada.

A ideia é sublinhar a importância da memória ao mesmo tempo em que tenta estender o tapete para o futuro. A metalinguagem cinematográfica ajuda na tarefa, claro. O poder contudo vem mesmo é da montagem, do que lembra um ziguezague imagético. Ora mostrando um mito, narrado por um dos jovens diretores, Oliveira Júnior, ora apresentando Elias Araújo, um artista local conhecido por Zé da Folha, embrenhado na mata, assoprando justamente a folha de uma planta, transformando-a em um instrumento musical. Nas cenas, ele usa um boné do São Paulo, o clube de Leônidas da Silva, Canhoteiro, Pedro Rocha, Serginho, Raí e Mineiro que se orgulha do passado e escanteia presente e futuro. Não deixa de ser uma ironia que perpassa o momento, já que o filme não segue estes passos.

Pelo contrário. No ápice, ouvimos uma senhora dizer que, se fosse nova hoje, ela não se casaria. O motivo? Os homens. “Nem todo homem”, ela frisa, mas fala nos que esfolam, batem, discursando a respeito da violência de gênero. “Caldeirão” surpreende, puxa, reflete sobre o processo histórico. E é construído com a receita de unir as pontas do outrora, da contemporaneidade e do porvir. De pensar o futuro. Tudo conectado, do celular do garoto no açude às motos das mulheres do bar. Afinal, como exibe a camiseta que uma delas usa, com imagem de Belchior ao fundo, “viver é melhor que sonhar”. 

Os créditos sobem com outro nome do Pessoal do Ceará: o piauiense Jorge Mello cantando “Trovão”.

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