Uma virtuosa homenagem ao cinema de David Lynch sobre Malmequer, de Maria Julia Gonçalves

por Lucas Detoni

David Lynch, um dos maiores diretores do cinema moderno, nos deixou em janeiro de 2025, mas o seu legado e estilo cinematográfico continuará existindo. Ora por imitadores baratos (sim, é possível), ora por homenagens e referências às suas mais belas obras.

Em “Malmequer”, curta-metragem dirigido e roteirizado por Maria Júlia Gonçalves, temos um exemplo recente da melhor forma de usar as referências Lynchinianas. Malmequer é um surto coletivo a partir de uma premissa simples, assim como todos os filmes de David Lynch.

Malmequer conta a história de Eva, uma jovem mulher que vai conhecer pela primeira vez os pais do seu namorado. Eva está tensa pela situação (ela aparece em cena jogando “bem-me-quer/ mal-me-quer com uma flor de cravo antes de sair do carro, e também está desesperada para ser aceita (ela leva uma garrafa de vinho, mas esquece de checar se seus sogros bebem). É um peso que Eva carrega em seus ombros, como se sua felicidade (e a do relacionamento) dependesse de passar uma boa impressão nesse primeiro encontro. Eva mal respira, mal fala, mal anda (a cena em que ela vê os sogros pela primeira vez é sublime). Mas o “mal” ainda estava por vir… E seguir contando o filme seria um erro imenso.

É um filme cheio de qualidades técnicas, que vão da direção de arte (de encher os olhos, ricas em detalhes e vida, concebida por Gabriel Perón e Julia Meirelles y Araújo) a direção de fotografia (estupenda, feita pela dupla Pedro Morales e Matheus Pires), passando pela montagem (também feita em dupla, Nalu Formagio e Douglas Dias – um viva para os cortes sutis) e o som e trilha (ambas magníficas feitas por Beto Buzzi). O filme ainda encontra força na interpretação angustiante e espetacular de Bella Camero (de “Marighella” e “Aumenta que é Rock´N´Roll”), que segura o filme com olhares penetrantes e segurando a respiração.

Malmequer é um belíssimo curta-metragem, dirigido com pulso firme e talento impressionantes, que prova que quando se bebe diretamente da fonte, o resultado pode ser tão bom quanto o seu criador.

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