Velhice insubordinada – sobre “Adrenalina”e “Vim e irei como uma profecia”

por Mariana Castro

“… a minha imagem é meio chata, estou sentado na mesma poltrona em que eu estava sentado da última vez, então pode ficar meio monótono, não é?”. Essa é uma das provocações no diálogo entre Jean-Claude Bernardet e Wesley Pereira de Castro, retratados no curta-metragem “Vim e irei como uma profecia”, de Fábio Rogério, na Mostra Brasil 6 – Festa de Gala, e a escolhi para abrir este texto porque o encontro entre os dois personagem pode ser descrito como qualquer coisa, menos monótono.

O título do curta é uma referência aos versos de “Poema do cristão”, de Jorge de Lima, que usa das expressões do campo cristão e bíblico para refletir sobre a finitude e o papel do profeta. Aqui, o profeta se confunde com o poeta: usa da linguagem para criar uma realidade que possa superar os limites do espaço e do tempo. Nada mais natural, portanto, que a representação artística seja o modo como ele tenta apresentar seu mundo, sua forma de ver as coisas, e de traduzir sua mensagem. É o caso de Fábio Rogério, que chamarei de poeta visual. Sua montagem, a partir de trechos de uma live nas redes sociais protagonizada por Jean-Claude e Wesley, constrói uma homenagem póstuma a Bernardet, e também uma obra experimental que nos permite conhecer essas duas figuras falando de seus corpos, e que usam da corporalidade para exprimir seus sentimentos.

O legado do teórico e cineasta é também homenageado na ficção inventiva dirigida por Pedro Goifman. Se no filme de Fábio Rogério a conversa ocorre através da tela do celular, em “Adrenalina” Goifman nos coloca diante de uma entrevista que acontece no centro de São Paulo, no Edifício Copan, com o médico cardiologista, escritor, cleptomaníaco e ciclista Jean-Claude Bernardet. O filme borra de maneira natural as fronteiras entre a atuação e a fabulação da própria vida do cineasta, assumindo para si as dificuldades físicas que ele enfrentava em vida, como a de locomoção, e colocando-as num personagem que desafia a estática do corpo. No fim da sessão a que estive presente (primeira exibição do curta de Goifman), o comentário da mediadora do Curta Kinoforum na conversa com os realizadores resume bem as obras que colocam Jean-Claude em evidência: sua postura transgressora casa perfeitamente com a potência das narrativas selecionadas que retratam uma velhice insubordinada.

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