Mulheres trans no topo da narrativa sobre Americana, de Agarb Rocha

por Rhero Silva

O filme começa com Bryana — a “Americana” — surgindo de forma exuberante, em look rosa vibrante, enquanto sua voz em off conduz a narrativa ao som de uma trilha alegre. Logo de início, ela enfrenta o assédio de alguns homens que jogam bola, revidando com um cotoco e declarando seu ódio por “homem hétero cis”. Em seguida, apresenta sua lista de aversões e, principalmente, sua ex-melhor amiga Josefina, a “Zé”. A partir daí conhecemos seu grupo: a Pisciana sonhadora, Ariel — pessoa não binárie viciada em fanfics sexuais — e Cassiane, agora convertida à igreja. 

O conflito central surge quando Bryana acusa Josefina de se envolver com seu namorado, Belo. A discussão vira briga física e é interrompida pela polícia. Só depois, na delegacia, descobrimos que Cassiane havia chamado as autoridades ao encontrar um homem drogado. A narrativa não linear embaralha a história, revelando diferentes perspectivas. Bryana quebra a quarta parede em alguns dos momentos, aproximando o público e dando à obra uma camada metalinguística.

O curta retrata também o relacionamento abusivo de Bryana com Belo: ele a proíbe de falar com suas amigas, critica suas roupas e, como ela relata, mexe em seu celular mas não permite que ela mexa no dele. Mesmo percebendo os abusos, Bryana permanece presa pelos seus sentimentos por Belo. Essa dimensão amplia o peso dramático, transformando a comédia inicial em retrato das violências afetivas.Vale lembrar que Bryana é uma mulher trans e Belo é um homem cis, o que torna essa relação ainda mais complexa, evidenciando como tais violências são parte da realidade cotidiana de muitas mulheres trans no Brasil.

Nos depoimentos, cada amiga traz sua versão até que Josefina revela: Belo a procurou para organizar uma festa surpresa e acabou forçando um beijo. A delegada conclui que Bryana precisa ouvir mais suas amigas, o que marca uma virada simbólica. No clímax, após a prova da traição, Bryana explode e enfrenta Belo, libertando-se de seu controle. O reencontro com Josefina é marcado por perdão e humor, quando Bryana propõe um beijo “apenas para terminar o filme”, quebrando a quarta parede outra vez. O desfecho celebra o aniversário da protagonista, agora cercada de amigas.

Visualmente, o filme se destaca pelo uso expressivo das cores, presentes nos figurinos, maquiagens e cenários, criando uma estética vibrante que dialoga com a personalidade das personagens. A fotografia, atenta aos enquadramentos e à iluminação, potencializa essa construção, enquanto as atuações sustentam uma naturalidade cativante, sem exageros artificiais. Para além de suas escolhas estéticas, o curta se mostra necessário e urgente, especialmente por colocar mulheres trans no centro da narrativa, interpretando personagens trans e contando suas próprias histórias. Essa representatividade amplia o impacto social da obra e contribui para visibilizar violências e afetos que marcam a vida dessas mulheres no Brasil.

One thought

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *