No futuro só tem sapatão sobre Meu Pedaço de Mandioca de Raíssa Castor

por Nina Neves

Vez em quando desejo ser fumante só pela “licença poética” que permite escapulir de uma situação social e ficar num cantinho parada pensando na vida. O monólogo incitante de Meu Pedaço de Mandioca é um momento exatamente assim: Rita, brilhantemente interpretada por Moira Albuquerque, levanta de uma mesa de bar com amigos, pede um cigarro a um desconhecido e compartilha conosco os pensamentos mais profundos sobre seu pedaço favorito de mandioca frita (aqueles pequenos e bem torradinhos, caso tenha batido a curiosidade aí). Rita reflete com perturbada intensidade “o que isso quer dizer sobre mim?”, mas antes que o devaneio chegue a alguma conclusão, ela tem a visão encantadora de uma porta-bandeiras que dança na rua em meio ao brilho de cores e purpurina. Afinal, Rita saiu da mesa pra não fumar, o cigarro sequer é aceso, mas a chispa do seu pensamento questionador e onírico dá o tom ao filme. 

Quando retorna ao bar, ela encontra personagens que vão mudar sua vida – inclusive adicionando literalmente mais cor às cenas de forma progressiva, um dos méritos da direção de arte de Flora Suzuki, que inclui outras sutilezas e gracinhas gostosas de descobrir a cada quadro. Primeiro, Rita se surpreende com um cozinheiro drag queen, então conhece Laila, a porta-bandeira do seu delírio que é, na verdade, a garçonete do bar. Esse encontro provoca um incêndio (simbólico e literal!), depois do qual Laila explica tantos detalhes sobre a mandioca feita ali, que vamos entendendo que talvez não seja bem de mandioca que ela está falando… Rita agradece – pela aula? pelo que está por vir? – e a beija. Por fim, Rita se depara com uma mulher com cabeça de sapo que a convida para uma pista de dança onde personagens queer a recebem com alegria. 

O filme é feito de alucinações e ludicidade bastante simbólicas, embaladas em cenas deliciosas de ver e ouvir. Os primeiros planos já evidenciam a energia empregada na sensorialidade: ouvimos no detalhe o corte da mandioca, sua fritura, sons do que acontece em volta – tudo com uma trilha gostosa no volume certinho para ser notada sem atrapalhar nenhuma das demais sensações. O mesmo pode ser dito sobre os planos fechados em detalhes como gotas de suor, objetos da cozinha, um incenso espetado na mandioca. Já o zoom lento no rosto de Moira durante o monólogo aproxima e cria cumplicidade com o espectador. Sua atuação sensível dá ainda mais sentido ao texto doidinho e divertido de Raíssa Castor, que também assina a excelente direção. 

São muitas as camadas simbólicas cifradas nos detalhes. O som de brejo no momento do olhar trocado com uma comensal sapatona no bar, Rita encharcada após o incêndio do desejo, os movimentos repetitivos de quem come no bar, condensando a ideia de normatividade – aquelas “leis” não ditas nem acordadas sob as quais acabamos vivendo em sociedade. E por fim a dança da aceitação de si, esse baile onde Rita é vista e celebrada. 

A mandioca, muitas vezes considerada um símbolo fálico, aqui é picadinha, frita, temperada e digerida, se tornando um totem lésbico de libertação. Assim, o filme condensa magistralmente a proposta da Mostra Fora da Ordem, representando o que há de mais interessante nos “desejos que zombam do falo”. 

Com suas imagens improváveis e saborosas, Meu Pedaço de Mandioca é de dar água na boca – da comida ao beijo.

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