O incômodo do som da batida no aquário sobre Amarela, de André Hayato Saito

por Maria Silveira

Em 12 de julho de 1998, os olhos do país estavam voltados para a final da Copa do Mundo entre Brasil e França. Palpites nas ruas rolavam entre uma conversa e outra, fogos de artifício estouravam, vozes da torcida ecoavam pela cidade. A expectativa era grande para o país do futebol. E é a partir desse contexto de resgate de um resultado amargo da nossa memória coletiva em que ocorrem os desdobramentos de “Amarela”.

O curta do nipo-brasileiro André Hayato Saito, que assina o roteiro e direção, percorreu por pelo menos 35 países, incluindo o prestigiado Festival de Cannes na mostra de curtas em 2024, até chegar na sua estreia paulistana no 36º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, quase 100 anos depois do primeiro filme japonês ser exibido no estado. Um longo caminho até os dias de hoje, em que podemos propor diálogos sobre a experiência amarela brasileira.

Assim como muitos torcedores, Erika Oguihara, personagem da estreante Melissa Uehara, aguardava ansiosamente o resultado da partida final nos dias que precediam o evento, ao contrário de seus pais que entendiam o “feriado nacional” da Copa como mais uma desculpa para não trabalhar. Entendemos também que as raízes se misturam quando ouvimos o português e o japonês, e vemos louças duralex âmbar (tipicamente encontrado em muitas casas brasileiras) e uma arrozeira elétrica (tradicionalmente usadas em casas asiáticas), por exemplo, como elementos simbólicos da direção de arte.

À noite, já na cama, Erika pega uma lanterna e ilumina os objetos da casa passeando pelos pôsteres espalhados na parede do quarto escuro. Enquanto observa as fotos da seleção, ela sussurra um Pai Nosso e imagina a vinda de um possível pentacampeonato. Um convite para entendermos um pouco do fluxo de consciência da personagem, que tenta encontrar uma espécie de pertencimento dentro da sua própria nacionalidade.

A Copa é desenhada por meio de conversas sobre jogadores que participaram na final, pôsteres e camisetas antigas, bem como o som da partida na TV – uma conexão temporal justa do diretor tendo em vista a importância em retratar as microagressões sofridas por Erika através de enquadramentos fechados e focados nas reações da jovem. O ápice emocional ao final de “Amarela” em que ela chora em silêncio nos faz refletir sobre a dor e o desgaste que atravessa a vida dessas famílias brasileiras marginalizadas.

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