República Dissolvida em Tela sobre República, de Grace Passô

por Ana Peixe

Um olhar que muda conforme a luminosidade informa o rosto. A mudança que percorre um corpo que acorda de um sonho, de uma mensagem xamânica. Sombra e luz em um rosto urgente em dizer. Dizer o que ninguém parece ter coragem ou vontade de verbalizar. O Brasil é um sonho. Tudo é um sonho. E a qualquer momento alguém vai acordar. O estranhamento de acordar ou de se perceber em um lugar que não existe ou que não deveria existir. A diegese ganha outra forma, perde o foco: o diafragma muito aberto oblitera a ilusão do filme ao passo que desmanchar a ficção a insere numa dobra em si mesma.

Grace Passô é crua, ativa, implacável. Desenha a paisagem de um Brasil aterrorizado, oprimido e brutalizado. Utopia, distopia, essa esquina o filme já virou. O Brasil está na corda bamba: catástrofe sanitária e colapso socioambiental do outro lado da linha, mas que grita no térreo de sua rua. 

“O seu Brasil acabou, e o meu nunca existiu!”. O estado de choque permanece em todos os rostos. Grace, Anastácia, a mãe, qualquer rosto da televisão. A rua está na sala, a sala virou rua: é voz, fogo, entidade. É seu rosto que está olhando de volta. Olhos firmes, marejados,  assemelham-se ao rosto de quem se olha. Uma violência salta da tela: um limite rompido entre realidade e representação, densidade e duração. 

Quem ousa sonhar um Brasil do jeito que ele é?

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