Um Olhar Delicado Sobre A Beleza Do Ser Incompreendido sobre Kabuki, de Tiago Minamisawa
por Lucas Detoni
Em certo momento, uma personagem se olha num espelho d’água, mas o reflexo que ela vê é outro. Essa é só uma das maneiras que subtextos e temas são expressos e abordados no estupendo e espetacular curta-metragem de animação Kabuki, dirigido, roteirizado e produzido como talento único de Tiago Minamisawa, um dos autores ao lado de Guilherme Petreca, da grafic novel que deu origem ao filme (Editora Pipoca & Nanquim, 156 páginas).
Kabuki conta a jornada da personagem título em busca de autoaceitação, resiliência e luta contra a intolerância. A escolha narrativa não poderia ser mais assertiva, levando a história para um teatro kabuki, que é um drama musical estilizado ancestral do Japão (realizado desde 1603), que tem como característica principal o uso de máscaras, maquiagem elaborada, figurinos extravagantes, sempre sendo interpretado por atores homens, inclusive para os papéis femininos. Sim, a personagem principal de Kabuki é uma pessoa transgênero, que se reconhece assim desde a infância, e que luta para se esconder, podendo ser ela mesma apenas quando está sob uma máscara, maquiagem e roupas. É uma metáfora inteligentíssima para o ritual de passagem e aceitação da personagem, mas que não deixa de retratar a violência que a sociedade vê e causa nas pessoas trans (a cena dos lobos é um exemplo doloroso, triste e ainda assim poético).
Sem nenhum diálogo, o filme se sustenta em belíssimas imagens coordenadas por Guilherme Petreca com direção de animação por Erica Valle, que une a técnica de stopmotion clássica, que traz movimentos travados, quase artesanais, criando uma ilusão de movimento. A trilha sonora exuberante feita a quatro mãos (Ruben Feffer e Gustavo Kurlat), uma mistura de sons de xilofone, teclados e batimentos cardíacos, levando o espectador a uma imersão até o final poético e lírico, um dos mais belos concebidos na animação stopmotion. É uma equipe técnica competentíssima, trazendo uma riqueza de detalhes impressionante, que mostra o quanto o cinema de animação no Brasil tem evoluído ao longo dos anos.
O filme estreou no 57° Festival de Brasília (2024) e continua uma trajetória vitoriosa pelos festivais do Brasil e do mundo. É um feito imenso para um projeto de animação em stopmotion, uma das técnicas de animação mais complexas no universo cinematográfico.
Kabuki é para ser aplaudido em pé, e ser celebrado como arte cinematográfica no seu mais puro sentido, mas se preferir, você pode simplesmente usar a frase clichê do cinema atual: ABSOLUTE CINEMA!