por Lievin Kiandre de Souza Britez Pontes Miguel
Uma mulher está submetida à situação de violência doméstica com um marido obcecado pela construção de seu casebre de barro em “João-de-Barro”. Um pastor e seus filhos conduzem cultos religiosos com falsos rituais de possessão em “O véu”. Um jovem desempregado tenta se dedicar às suas funções como pastor de uma comunidade evangélica em “Os beatos”. Uma sequência de ligações em torno de uma questão ainda em resolução sobre uma pessoa que ainda não voltou constroem “Ligação à noite”. Uma criança acende uma vela enquanto uma missa é realizada em “Batismo em clorato de potássio”. Essa sequência de cinco filmes atravessados por questões de fé e religiosidade em suas estruturas centrais compõe a sessão “Mostra Brasil 7 – Metanóia à brasileira” do 37º Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo – Curta Kinoforum.
Na introdução do livro A história da arte¹ há um pensamento relevante acerca da relação arte/artistas – a ideia pode ser perfeitamente aplicada ao cinema sem prejuízo de sentido mesmo que os objetos de análise do texto sejam pinturas – que serve como um ponto de partida à construção de uma reflexão crítica dos filmes da sessão e sobre a realização e exibição de cinema no Brasil. Ernst Gombrich escreve que três aspectos devem permanecer sempre à mente durante o exercício de análise da (história da) arte: que a beleza de uma obra não reside na beleza de seu tema; que as concepções de beleza e expressão são raros entre os artistas; e que artistas não seguem regras fixas mas muito mais a sua intuição. Trago essa passagem logo de início para destacar dois fatores contemporâneos que não deveriam ter as suas existências ignoradas: i. a presença de um certo parasitismo temático na realização e análise fílmicas como se a mobilização de um tema relevante por si só fosse um fator de legitimação para filmes que paradoxalmente tendem a ser superficiais e insuficientes (quando não: conservadores e/ou reacionários) na relação forma/conteúdo de suas propostas estéticas; e ii. a banalização da retroprisão das referências que engessa a construção de linguagens e identidades cinematográficas próprias e reduz a criação artística a um mero jogo complacente de reprodução de conceitos e moldes icônicos que dilui a potência do cinema enquanto explosão terapêutica do inconsciente². E nesse sentido o trio inicial da “Mostra Brasil 7” compartilha características estéticas para além do tema definido curatorialmente e parece compor também um diagnóstico em comum: são filmes técnicos que não tensionam suas formas fílmicas e escondem a ausência (ou insuficiência) de construção discursiva por trás de um parasitismo temático; transmitem supostas profissionalização e sofisticação do fazer cinematográfico quando no máximo jogam seguro dentro do universo de padronização das regras de linguagem de um modelo de cinema narrativo que se estende desde Griffith; não compreendem a condição do curta-metragem – e tampouco se deixam impregnar por ela ou a incorporam na formatação de sua linguagem – como uma forma cinematográfica própria; realizam o filme como se fosse um projeto piloto de longa-metragem e por isso nunca dão conta de desenvolver ou concluir satisfatoriamente as ideias apresentadas. Vamos então a cada um dos casos.
- “João-de-Barro” é construído acreditando numa certa força das imagens que no fundo não existe porque tudo é dado indulgentemente como uma forma de simbolizar a violência retratada. A maior expressão disso é a suspensão temporal operada no plano das mãos da personagem levantando o vestido para revelar seus joelhos machucados: a ação é inserida como um elemento exógeno sem relação com a construção fílmica como um todo e a sua função é simples e unicamente expor/denunciar o ato de violência. E o filme percorre por esse caminho: os planos de paisagem são gratuitos pois não desempenham a função de ambientação nem de elipse ou transição temporal/espacial enquanto os planos detalhes são de objetos que não possuem função narrativa. O que deveria ser a constituição do discurso narrativo é recorrentemente encaminhado para uma dimensão poética caracterizada pela indefinição; da mesma forma que seu desenvolvimento se concentra em um exercício de psicologização do sofrimento (a mulher em condição passiva de submissão) para na conclusão operar uma virada catártica pretensamente surpreendente (artifício típico de narrativas de streaming) através de um elemento sobrenatural que não necessita de coerência sob a justificativa de ficar aberto à leitura do espectador.
- A composição visual de “O véu” apresenta uma forte exuberância plástica mas a obra como um todo é inacabada nas ideias e desorganizada em sua construção; também é insuficiente em suas ambições e coesão final. Esse apontamento encontra uma síntese assertiva nos próprios créditos do filme: há uma preocupação enorme em enfeitar/estetizar a composição tipográfica dos letreiros mas não há qualquer preocupação com a função prática dos mesmos (os créditos não permanecem tempo o suficiente na tela para ler pelo menos metade dos nomes dos profissionais que se dedicaram à realização do filme). O mesmo se dá na dimensão narrativa: os elementos religiosos são totalmente esvaziados em seus significados espirituais de fato e têm apenas a função de justificar a encenação de atos sobrenaturais que por sua vez não precisam passar por um filtro preocupado com a coerência. A preocupação do filme é meramente plástica e presa à reprodução de referências iconográficas: tenta-se desesperadamente ser Ari Aster ou Robert Eggers; essa fixação em ser A24 carrega consigo uma prisão firmada dentro da incapacidade de uma construção de nós mesmos – relação dialética construída historicamente entre o não ser e o ser outro³ – que sabota qualquer possibilidade de formação de identidade e linguagem cinematográficas próprias.
- “Os beatos” segue para outra direção ao mesmo tempo que potencializa os aspectos destacados nos dois casos anteriores: o filme parece esconder a inexistência de uma construção discursiva por baixo de uma perspectiva observacional que nunca chega a revelar ou expôr algo. Não deixa de ser irônico que todos os dilemas psicológicos do personagem são literalmente verbalizados nos poucos diálogos existentes e que estão presentes ali exatamente para isso: verbalizar os sentimentos; como se não houvesse outras formas de transpor isso na tela. “Os beatos” é capaz de apresentar sua própria síntese a partir de um momento específico assim como acontece com “O véu”: o plano de um cadáver de tartaruga sendo devorado por urubus; plano que está lá simplesmente porque foi filmado em algum momento e por isso mesmo foi incluído na montagem final mesmo que não produzisse algum sentido relevante no resultado final.
“Ligação à noite” entretanto provoca uma quebra nesse perfil: a desvinculação com o modelo de cinema narrativo exibido nos três curtas anteriores é imediatamente perceptível na forma fílmica; a gramática griffithiana (a noção do cinema enquanto elemento essencialmente visual) é invertida e a imagem passa a ocupar a função de suplemento da dimensão sonora⁴. Mais do que isso: ocorre a provocação de um estranhamento. Som e imagem não se casam e inclusive parecem ser mesmo insuficientes um para o outro; as imagens parecem pedir outra construção sonora e o som parece ser autossuficiente ao formar uma paisagem sonora que dispensa as imagens projetadas. A objetividade da essência visual do cinema é desvirtuada: as imagens não são ilustrativas ou objetivas; operam mais sombras do que luzes e formam texturas mais a partir do que não é possível delinear identificação do que pela visualização plena do que é filmado.
“Batismo em clorato de potássio” reforça essa mudança (o curta parece mesmo uma versão definitiva das experiências formais presente em “Ligação à noite”) e funciona até mesmo em sua apresentação como uma antítese ontológica ao trio inicial da sessão: não é à toa que os curtas exibidos anteriormente dependam condicionalmente de suas sinopses para alcançar a plenitude de sua compreensão narrativa (“O véu” me pareceu ser o menos dependente dos quatro); em “Batismo em clorato de potássio” o título diferentemente é exatamente o que dá a liga de sentido à obra. O batismo de uma criança é equivalente ao batismo que vai revelando aos poucos a imagem (em um processo de descoberta que é essencialmente o percurso das etapas de feitura do próprio filme). O espírito que dá força à liturgia religiosa é o mesmo que o da crença na realização cinematográfica; acredita-se na potência de uma experiência sensorial que é anterior ao processamento lógico da compreensão fílmica. Talvez por isso mesmo a luz revela pouco do que há nas imagens; ela está sempre recortando ou delimitando com sombras os objetos filmados enquanto a dimensão sonora dá o peso necessário à compreensão do que se tem em cena. Ironia estética de uma linguagem construída sob medida à sua realidade cinematográfica: enxerga-se muito mais o filme ao se limitar a visão para a partir disso possibilitar o mergulho na imersão fílmica; muito mais do que através de uma tentativa de investigação sustentada nas lógicas de objetividade e da supremacia das imagens.
A “Mostra Brasil 7 – Metanóia à brasileira” portanto tem as capacidades de expor uma realidade atual do cenário de produção de curtas-metragens brasileiros e de possibilitar uma reflexão sobre os sentidos e significados em torno da realização de cinema no Brasil. O texto de apresentação da sessão fala sobre a necessidade do cinema “auscultar qualquer homilia […] não importa se são convencionais ou mais experimentais”: é louvável que um festival de curtas-metragens como o Kinoforum tenha alcançado uma dimensão que suporte o volume de filmes exibidos na extensa programação distribuída entre as diversas salas que constituem seu circuito exibidor; mas pensando-se em termos de escolhas curatoriais também é interessante notar a desmedida na composição da sessão (de “João-de-Barro” a “Os beatos” são 62 minutos enquanto “Ligação à noite” e “Batismo em clorato de potássio” somam 17 minutos). Considerando-se os apontamentos levantados sobre cada um dos filmes e que – em última instância – curadoria se trata de escolher quais filmes serão exibidos e quais não serão: seria talvez o caso do festival ter se tornado refém de suas próprias curadoria e (extensão da) programação?
¹ GOMBRICH, Ernst. “Introdução – sobre arte e artistas”. In: A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999, p. 18-37.
² Conceito presente em: BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica: primeira versão”, in, Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume 1. Tradução de Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 190.
³ GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, p. 88.
⁴ MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas & pós-cinemas. Campinas: Papirus, 2007, p. 150-152.