Em 2018 tem mais

A oficina Crítica Curta de 2017 encerra neste post suas atividades. Foram 52 textos, sobre 46 filmes exibidos nos programas brasileiros e latinoamericanos, escritos por estudantes de audiovisual e de comunicação de escolas paulistas durante a realização do 28o. Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo.

Alguns desses textos foram publicados também no site CineFestivais, com o qual o festival firmou uma parceria.

Abaixo, a lista dos participantes da oficina e dos filmes criticados por eles.

Meus agradecimentos especiais a Zita Carvalhosa, diretora do festival, Amanda Pó, da equipe de produção, e Mateus Nagime, coordenador dos programas brasileiros.

Quero dedicar todos os textos e filmes desta edição da oficina à memória dos críticos Christian Petermann e Cid Nader. Ambos muito próximos do cenário do curta no Brasil, eram dois críticos que amavam o que faziam e que contagiavam quem estivesse perto com esse amor.

Até 2018!

Sérgio Rizzo

Coordenador do Crítica Curta

PARTICIPANTES DA OFICINA EM 2017

Adriana Gaeta Braga, Ana Luisa Pasin Valle, Ande Romano, Cauê Vinicius, Daniela Rodrigues Bontorim, Gabriel Faustino, Guilherme Franco, Louise Belmonte, Luiz Gonzaga de Souza Junior, Marcelo Miceli de Carvalho, Rogério Henrique Gonçalves, Vanessa Karina de Oliveira

FILMES

A Canção Do Asfalto

A Gis

A Passagem do Cometa

Animais

As Batalhas de São Carlos

Aquela Estrada

Azuis

Caminho de Sempre

Casca de Baobá

Castillo y El Armado

Centauro

Césio, o Camaleão

Cisão

Cores e Botas

Crespos

Damiana

Demônia – Melodrama em 3 Atos

Demônios de Virgínia

Dona Vilma

El Animal Preferido de Dios

El Monopolio de la Estupidez

Farol Invisível

Fenômenos Naturales

Filme-Catástrofe

Great Muy Bien

Kbela

Killing Klaus Kinski

La Jungla te Conoce Mejor que Tú Mismo

Mais Uma Dona Maria

MC Soffia

Merencória

Minha Única Terra É na Lua

Mumbi 7 Cenas Pós Burkina

Nunca é Noite no Mapa

O Dia de Jerusa

O Tempo dos Orixás

Òrun Àiyé: A Criação do Mundo

Pequeño Manifiesto en Contra del Cine Solemne

Procura-se Irenice

Quando a Gente Chegar Lá

Represa

Tempestade

Tempos de Cão

Torre

Trilhos

Vênus-Filó a Fadinha Lésbica

LA JUNGLA TE CONOCE MEJOR QUE TÚ MISMO (entrevista)

O cinema que acha sua voz, o cinema necessário

Premiado no Festival de Berlim deste ano, selecionado para o Festival de San Sebastian e exibido na Mostra Latino-Americana 2 do Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, “La Jungla te Conoce Mejor que Tú Mismo” trouxe mistério e uma viagem espiritual para as sessões. O Crítica Curta fez uma entrevista por Skype com a diretora Juanita Onzaga, que atualmente mora na Bélgica.

A diretora Juanita Onzaga Foto: Divulgação

Após se formar no ensino médio na Colômbia, ela decidiu desbravar outros lugares. Morou inclusive no Brasil, e realizou o sonho de estudar literatura na França. Em meio a alguns takes em terras francesas, resolveu estudar direção de fotografia na Bélgica, além do mestrado em direção cinematográfica, em que teve seu curta (em inglês, “The Jungle Knows You Better Than You Do”) como trabalho de conclusão.

A ideia de realizar o filme surgiu quando ficou dois meses dentro de um apartamento após um acidente. Passou esse tempo lendo muitas histórias de realismo mágico, de violência, foi relacionando-as à morte de seu pai e ao seu irmão, e transformou tudo isso em uma narrativa. Para ela, o que importa é o modo poético — “não interessa a verdade, mas a realidade invisível da vida” — do que aconteceu com seu pai, o período rebelde adolescente do irmão.

Escrever o roteiro foi de certa forma intuitivo; gravar foi difícil, mas divertido; e montar foi um processo criativo e transformador, em que tudo se transformou. Juanita conta que o título de sua obra surgiu na edição, e que nessa etapa do projeto começou a sentir a “jungle” (floresta/selva), os espíritos, vozes. Tudo foi tomando forma.

Ela sabia que queria começar com sua voz narrando um relato, com as ruas de Bogotá e o trajeto que pegava de ônibus para voltar para casa. Assim, já queria deixar claro para o espectador do que se tratava seu filme. O processo de montagem foi o mais demorado e no qual mais a obra se transformou. Ela conta que editava, voltava, deixava parado e depois voltava novamente.

Não sabia qual voz colocar no filme, se a dela ou a de seu irmão; perguntada sobre quem comanda o filme, ela diz que acha que é seu irmão, por conta de ser o impulso para a realização da obra — construiu as emoções do filme de acordo com o irmão. A “jungle” está lá, é o lugar que nós todos temos em nossas cabeças, em que pensamos em nossos antepassados, nossos sentimentos, e esse lugar que nos pertence e que sabe mais do que nós mesmos.

Algumas pessoas dizem que é documentário, outras que é ficção, mas a diretora diz que é apenas um filme. Quem diz que é documentário o faz por conta de ser autobiográfico, mas ela realmente só pensa que é a mistura do roteiro que tinha escrito com a gravação com o irmão. Juanita conta que nunca mostrou o roteiro

para o irmão, apenas ia seguindo ações e, como um dispositivo audiovisual, falava para ele dizer tudo o que queria fazer, como na cena em que retira as colagens do quarto para pintar as paredes.

Câmera muito próxima, descobrindo-o, o que ele olhava, o que sentia. O contato dele com as atrizes contratadas, a intimidade ainda não desenvolvida ao extremo. Ela diz que foi um processo muito divertido. Ambos têm uma boa relação um com o outro, assim como ela com sua mãe, que é sua maior heroína, quer fazer um filme para ela, e com seu pai, que está “no fundo do coração”, sua “maior inspiração”.

O irmão de Juanita que atua como personagem/ator de si mesmo Foto: Divulgação

Suas maiores referências estão na literatura: Júlio Cortázar, que foi a maior influência no estudo de literatura na França; Hermann Hesse e o jeito profundo com que escreve suas obras, como ele vai fundo na espiritualidade e aspectos filosóficos. Suas referências cinematográficas começam com o tailandês Apichatpong Weerasethakul e sua mistura não clara entre o que é mágico e o que é real; a poesia e os diálogos de “Aquele Querido Mês de Agosto”, do português Miguel Gomes, e uma de suas maiores influências: a argentina Lucrecia Martel.

Juanita afirma que os novos realizadores têm que ser honestos com eles mesmos, com o que os fascina e os leva. “Just do it!”, diz. Temos que começar com o que já se sabe, depois ir descobrindo histórias e projetando fora de você, saber o que funciona com você e não perder a fé. A colombiana diz que a América do Sul está mudando e que nós precisamos colocar isso nos nossos filmes, no nosso cinema. Essa é a responsabilidade que temos.

Para ela, atacar não funciona, mas sim observar, fazer filmes que as pessoas não querem ver. Nós somos corajosos, nós podemos fazer! Ela diz que a América do Sul é muito rica, que está achando suas linguagens. Países em desenvolvimento têm histórias para contar, falar sobre sua luta. Nações como Colômbia e Venezuela estão começando a achar uma linguagem. É refrescante esse novo cinema, que tem mais camadas do que se imagina. Mesmo com conflitos de guerrilhas e outros problemas, a Colômbia tem muita beleza para mostrar. É um cinema necessário.

 

(Guilherme Franco)

 

 

ANIMAÇÃO: GÊNERO OU LINGUAGEM?

Três personagens ajudam a responder uma pergunta

Apesar de avançar em muitos espaços até então inéditos, ainda hoje a animação encontra muitas barreiras, de gente que torce o nariz por considerar que “não é exatamente cinema”. Ou que associa sempre animação ao universo infantil, já que boa parte das produções mais vistas são voltadas para esse público, principalmente na TV aberta.

Mas as coisas estão mudando. A TV vem perdendo espaço nos últimos anos para a internet como principal vitrine dessa arte (que é ainda mais antiga que o próprio cinema). E, nesse terreno democrático da rede, a variedade é mais ampla, além de apresentar muitos canais diretos de comunicação com os artistas criadores.

O programa “Animação: Gênero ou Linguagem?” ajudou a ampliar essa imagem sobre as possibilidades do filme de animação. Três das animações eram filmes brasileiros premiados em diferentes festivais do mundo e que trazem emoções para todos os gostos.

Em “Vênus-Filó a Fadinha Lésbica”, o realizador Saulo Leite nos traz uma fabula adulta e multicolorida, com cenas pra lá de ousadas, baseado em um poema de Hilda Hilst, e narrado pela maior estrela viva de nosso cinema, Helena Ignez, que segue superativa tanto no teatro quanto no cinema.

A história de Filó é contada numa animação altamente erótica, que usa a técnica da rotoscopia para apresentar a sedutora personagem-titulo, um ser mítico/urbano, macho/fêmea sedutora que, tal qual o boto do nosso folclore, se transforma à noite, causando alvoroço na cidade. O filme vem alcançando vôos altos e foi indicado ao Teddy Award deste ano.

“Castillo y El Armado” nos leva para um dia num cais pouco amigável, em preto e branco, numa ilhota entre Uruguai e Brasil. Acompanhamos a rotina de um estivador, seu trabalho, sua família e sua luta feroz à la Hemingway, na qual tenta domar um peixe monstruoso.

O movimento da cena de pesca parece um balé violento, de uma brutalidade que salta da tela. Conseguimos sentir o cheiro do peixe, da maresia e do sangue, enquanto a linha corta a pele do estivador — talvez dada a rudeza do traço, não sei se é isso, mas que é uma sensação forte, isso é! A produção do diretor brasileiro Pedro Harres é falada em espanhol e sua história é baseada num fato verídico ocorrido com Rubens Castillo, diretor de arte do filme.

A última animação brasileira do programa foi de Cesar Cabral. “Tempestade” é livremente inspirado na canção dos Beatles, “Eleanor Rigby”, e traz um marujo solitário que tenta vencer uma grande tormenta, tendo como bússola a amada que o espera, e que ele traz consigo na foto pregada na parede.

O filme se aproveita muito bem da infindável tempestade que mostra para brincar com diferentes fontes de luz de que o personagem dispõe, entre chamas, relâmpagos e lampião. Outra coisa muito impressionante nesse trabalho é a textura do mar, ainda mais se você puder vê-lo na amplitude da tela grande do cinema, uma mistura de realismo assustador com o expressionismo, em se pode ver, nas ondas, imensos rolos prestes a esmagar a embarcação do herói.

Durante essa viagem que a sessão proporciona, a resposta já se desenha pra quem ainda estava com a folha em branco. Animação não é gênero, não! Mas, sim, linguagem de mil possibilidades, técnica pra lá de generosa que serve pra assustar, emocionar e ir muito além do que os atores de carne e osso conseguem, até por conta do imaginário que temos construído sobre animação.

Um território onde tudo é possível, desde os inimagináveis ressuscitamentos do desenho do Papa-léguas até o mais realista dos dramas, como vimos em “Valsa com Bashir”, ou filmes com forte questão social e poesia, como os premiados longas brasileiros “Uma História de Amor e Fúria” e “O Menino e o Mundo”.

(Ande Romano)

AQUELA ESTRADA

O que vale é o caminho…

Na produção amazonense “Aquela Estrada”, dirigida por Rafael Ramos e exibida na Mostra Brasil 7, conhecemos Omar, que tem uma entrevista de emprego, mas resolve seguir numa viagem de carro com desconhecidos. Embarcamos juntos nessa viagem, pensando na conversa de bar que abre o filme; afinal, “o que vale é conhecer pessoas”. E seguimos nos flertes, em olhares que sobrevoam as coisas, pessoas e paisagens. Pegamos juntos a bela ponte que liga o nada a coisa nenhuma.

Como é bom poder ver uma cidade distante pelo olhar de quem mora ali, sem o risco do olhar que exotifica e cria tipos pouco tridimensionais, e em sua maioria folclóricos, pra distrair olhar cansado da vida sudestina.

Como é engraçado/curioso. também. ir com uma sede especifica nessa matéria e de repente se “surpreender” com a mesma vida que temos aqui. Embora a paisagem nos traga uma natureza distante, com rios, mangues e mata típica de região, o material humano é diverso como aquele em que esbarramos nas ruas de São Paulo, composto de um povo jovem , bonito, com cara de tudo e de nada ao mesmo tempo.

O filme tem uma sensualidade natural e duas curiosas cenas de sexo que parecem saídas do sonho/desejo dos personagens. Imagens do inconsciente em que, ao final, somos atormentados pela violência, ou pelo tempo que cobra… E o que seria aquele homem cabeça de caixa, com grandes olhos, armado e nu que nos persegue?

A trilha e seu desenho de som trazem importantes colaborações para o filme, principalmente aquela que se ouve durante o maior tempo de projeção, “7 Mantra”, da banda Luneta Mágica. É uma música de transe/coral de vozes, um mantra mesmo, como o nome anuncia e que, junto com as imagens, forma um imenso caleidoscópio que gira.

E se eu pegasse outra estrada hoje, sem me importar com o destino e só seguisse, mesmo que fosse uma liberdade com prazo, com hora de começar a volta, ainda assim é uma estrada que vale a pena? A frase pixada no muro, quando o carro arranca na última sequência, parece dizer que sim.

(Ande Romano)

REPRESA

Debaixo dos panos

 

A produção pernambucana “Represa” é um triller psicológico, que não se contenta em apenas sê-lo. O filme de Milena Times, exibido na Mostra Brasil 10, conta a história de um personagem (interpretado por Sebastião Formiga) que vive só e que percebe que alguém (Verônica Cavalcanti) invade sua casa em busca de comida. Poderia ser só isso e, da maneira como é realizado, já seria bom o bastante.

Mas a premissa de que há algo errado, cria um estado de tensão no filme e, por extensão, em nós, que ficamos completamente envolvidos no suspense da narrativa. Elementos como o café e a Coca-Cola tornam impossível não associar o filme à tragédia recente de Mariana, a toda a lama política e social que se transformou em negligência e que, até agora, encontra dificuldades para responsabilizar as grandes empresas envolvidas na tragédia.

O filme “Represa” fala das coisas que insistimos em colocar debaixo dos panos, em esconder dos outros e muitas vezes de nós mesmos: o nosso lado mais obscuro, até que a verdade explode e somos obrigados a olhar para o feio, para o monstruoso e assustador.

O elemento água doce funciona como um estado de pureza que precisa ser destruído, para que possamos encarar as agruras de nós mesmos. A economia de recursos, a concisão da narrativa e o final em aberto mostram o domínio de uma cineasta que sabe contar uma história com o mínimo. Econômico na edição e até na quantidade de planos, o filme mantém a atenção do espectador sobre um personagem que é comum, até ordinário em sua rotina metódica.

Anti-herói em sua essência, o personagem trabalha em uma loja de conveniência dentro de um posto de gasolina. Uma de suas funções é justamente vigiar os clientes para que não roubem mercadorias. Morador de uma casa/fortaleza como a maioria de nós nas grandes cidades, pretensamente protegido pelas grades que protegem, mas também afastam de qualquer contato mais humano, o personagem vive uma existência vazia e solitária.

Pode-se associar o filme ao sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) e, mais especificamente, ao livro “Confiança e Medo na Cidade”, em que discute as relações entre os seres que habitam a cidade. Segundo ele, nos últimos anos, o medo e a obsessão por segurança ganharam espaço mas, paradoxalmente, apesar de vivermos nas sociedades mais seguras que jamais existiram, nos sentimos cada vez mais “ameaçados, inseguros e assustados”.

É essa a sensação que o filme nos passa, quando começamos a antever as marcas deixadas pelo invasor. Nossa segurança é também tão ilusória quanto o ambiente artificial do aquário, nossa vida tão fake quanto as algas artificiais, nossa percepção do outro tão embaçada quanto um aquário revirado.

Em um mundo líquido, escorregadio nas relações pessoais e profissionais, Bauman vincula essa situação ao individualismo contemporâneo, pois, ao eliminarmos a importância das comunidades e corporações, obrigamos os homens a cuidarem apenas de si mesmos, o que gera incertezas e medo.

Segundo Bauman, esse sentimento de insegurança surge devido a dois fenômenos típicos da modernidade: por um lado, a supervalorização do indivíduo, ao libertá-lo do “peso” imposto pelas redes e laços sociais em demasia; por outro, a exacerbação dessa liberdade levou esse mesmo indivíduo a se sentir frágil e vulnerável. O filme, de maneira muito simples, trata de todas essas questões.

(Adriana Gaeta Braga)

TORRE

A ausência e a presença

 

“Torre”, exibido na Mostra Brasil 4, é um retrato poético da memória de quatro irmãos que tiveram sua vida quebrada em pedaços com o desaparecimento de seu pai. Virgílio Gomes da Silva foi o primeiro de muitos desaparecidos políticos da ditadura militar brasileira de 1964.

A diretora Nádia Mangolini coloca em cores e movimentos o que poderia ser simplesmente uma história esquecida, apagada ou invisibilizada. Ao invés de investigar diretamente a vida de Virgílio por meio de documentos e outros procedimentos da historiografia, ela decide contar, por meio de sentimentos, a relação deles com o pai, quais foram as sensações e lembranças daquela época.

Começa-se sem saber direito quem são aquelas crianças, quantas são; há apenas um pequeno vão no qual um sujeito indeterminado olha para quatro crianças na rua. Conforme a narrativa vai crescendo, tudo ganha cores e novas técnicas de animação a partir do que começou somente com o lápis branco e preto em cima de uma folha meio amarelada. Sons abstratos vão se misturando a novas cores, figuras e redefinições.

O curta inteiro é a voz dos irmãos (um de cada vez) contando essa história. A criança mais nova é a primeira a contar seu relato, e fica-se meio perdido, sem saber direito o que acontece. Até chegar no último irmão, em que as várias ilustrações dão lugar ao rosto do pai, sendo pincelado por laranja e vermelho. O roteiro de Gustavo Vinagre foi delicadamente estruturado para ir nos situando aos poucos, em meio aos relatos dos filhos, até chegarmos à face do pai.

“…marcava mais a ausência do que a presença dele [do pai]. ”

O grande símbolo da obra é o afeto. Sempre temos a figura da criança no colo, mesmo em meio a toda essa história trágica e desumana que foi o desaparecimento do pai. Aqui, a diretora evoca o carinho dessa família. As entrevistas têm um tom de tristeza, do que foi cicatrizado pelo tempo. As imagens, cores e ilustrações reconstituem as dores e os fantasmas ainda presentes nos irmãos, mas também as alegrias e o carinho pelo pai.

Somos postos diante a imagem do sentimento, abstrato e subjetivo como essa qualidade (ou não) do ser humano é. Cenas lindas e poéticas como uma máquina cortando cabelo que ia apagando, ele também, um cadarço amarrado ao pé de uma mesa, são construções poéticas que trazem tons surrealistas a esse drama tão triste.

Os relatos começam sempre no vestígio. Assim como um dos filhos, Gregório, diz “detalhes daquele mosaico que vou montando, que é meu pai”, vamos montando nossa percepção e sensação do que estamos vendo na tela do cinema.

O tempo inteiro temos a visão de uma torre, somos espremidos nesse local apertado que é como foi o processo de conviver com a perda do pai, como diz Vlademir: “processo de matar ele [o pai] dentro dele mesmo”.

(Guilherme Franco)

FAROL INVISÍVEL

Resistência ao tempo

 

O farol é invisível, mas ao mesmo tempo está intrinsecamente ligado à vida de quem mora próximo da confluência dos rios Pinheiros e Tietê. Assim se desenrola a obra documental “Farol Invisível”, de Bruna Callegari, exibida no Panorama Paulista 3 e que refaz o significado daquele monumento que resistiu ao tempo, inserindo-nos no espaço onde se localiza.

Ao começar com relatos pessoais do cotidiano de moradores que estão adjacentes ao misterioso farol, o curta exibe uma série de imagens da região e das pessoas acostumadas à sua presença. Muitos o reconhecem como algo que um dia já foi importante, porém não sabem ao certo o porquê de ele estar ali, já que não há nenhum tipo de transporte fluvial naqueles rios.

Com cuidado, logo após os depoimentos, o filme nos mostra vídeos propagandísticos que registram o projeto de uma São Paulo que parou no tempo e nunca saiu do papel. De fato, o crescimento desenfreado da metrópole engoliu o planejamento urbanístico da época, e até a própria utilidade daquele mirante, que se tornou obsoleto.

“Farol Invisível” nos leva a refletir sobre o abandono de uma cidade, devorada pela rapidez de seu próprio recrudescimento e resquícios no meio de uma nova e incessante metrópole. O farol exemplifica esse cenário e faz um paralelo do novo com o antigo.

Apesar da obsolescência do farol, nota-se que os cidadãos ao redor procuram ressignificar a obra, de acordo com o documentário. Isso faz com que haja um reconhecimento, tornando-a um símbolo daquela região, localizada na zona oeste de São Paulo.

(Ana Luísa Pasin)

KBELA

Ato de resistência

 

Exibido no programa Mulheres Negras – Mergulho Ancestral, “Kbela” é um filme de empoderamento das mulheres negras, a política por detrás dos cabelos

crespos, como um ato de resistência contra o embranquecimento, na procura por características caucasianas. Dirigido por Yasmin Thayná, foi selecionado para o 46° Festival Internacional de Cinema de Roterdã (IFFR), na mostra “Black Rebels”.

O documentário em si é um ato de resistência, contendo no todo mensagens simbólicas sobre a etnia negra. Nota-se isso não só nos cabelos crespos das mulheres negras, mas também nos figurinos, que fazem uma apologia às vestes das mulheres africanas. O uso do turbante como um dos acessórios de figurino não é uma simples peça do guarda-roupa; ao vesti-lo, a mulher negra está usando algo pertencente à sua cultura, em uma luta simbólica contra o racismo e os padrões da cultura europeia predominantes no país.

Apesar de o Brasil ser considerado o país das misturas, no qual convivem várias etnias, é um país (não de todo) racista. O racismo, que antes era oculto, atualmente tem se feito escancarar, o que é trágico.

A cena em que Isabel Zua está chorando, consecutivamente à cena em que ela está com um saco na cabeça, muito no diz, apesar da falta de diálogos. O racismo já está tão implantado no inconsciente da sociedade, através de inúmeras formas, que sua devastação arranca lagrimas.

A cena mais famosa do filme é aquela em que a mesma Isabel se esbranquiça, para depois, com o auxilio da montagem, se desembranquiçar. O embranquecimento da mulher negra que está em busca de características caucasianas é trazido, no enquadramento, de maneira poética e simbólica.

Um ponto questionável do filme é: até que momento o documentário irá continuar sendo um filme não-ficcional? Pois “Kbela” oscila entre o verídico e o ficcional.

(Vanessa Karina de Oliveira)

PEQUENO MANIFESTO CONTRA O CINEMA SOLENE (Entrevista)

Contra fórmulas e clichês

Exibido na Mostra Latino-Americana 1, a produção argentina “Pequeno Manifesto contra o Cinema Solene” chama a atenção por conta de suas grandes letras na tela, os recursos visuais e sonoros com que é construído um grande discurso sobre o Cinema. Durante a sessão, os espectadores ficavam entre uma risada e um olhar sério, se questionando em relação às proposições vistas na tela.

Roberto Porta, diretor do curta, falou conosco em português via internet, contando sobre a produção do filme e de sua carreira. Antes de estudar cinema na Universidade del Cine, em Buenos Aires, ele cursou brevemente ciência.

Seus curta anterior é “Jorge”. “Pequeno Manifesto contra o Cinema Solene” participou da mostra Cinéfondation no Festival de Cannes.

 

CRÍTICA CURTA (Guilherme Franco): Você utiliza com primazia um misto de ironia, comédia e até uma análise fílmica, de como vivemos presos a fórmulas e clichês cinematográficos. De onde surgiu a ideia do filme?

ROBERTO PORTA: A ideia começou depois de assistir a uma projeção de curtas em Buenos Aires. Fiquei irado de olhar as mesmas coisas uma e outra vez. Então eu achei uma boa ideia fazer uma coisa meio que piada/brincadeira disso, fazendo tudo o que eu achava repetido nos filmes.

 

CC: Por que um manifesto?

RP: Achei o formato de um manifesto interessante para minha ideia. Para começar, é uma lista de coisas que eu achei que não funcionavam na atualidade, depois tinha uma coisa meio como de revolução. Era compatível com o que eu pensava do projeto.

 

CC: Você se considera ou quer ser um revolucionário?

RP: Hahahaha. Não quero ser revolucionário, não. Quero fazer cinema mesmo.

 

CC: Você não acha que cinema é/pode ser uma revolução?

RP: Antes de pensar o cinema como uma revolução, tem que pensar o que você quer revolucionar.

Diretor Roberto Porta Foto: Divulgação

CC: Como foi o processo de produção de “Pequeno Manifesto contra o Cinema Solene”? Quais as principais dificuldades e curiosidades?

RP: Na verdade, tive poucos problemas. Eu tive A IDEIA no final de abril, e o curta ficou terminado COMPLETAMENTE no final de novembro. Uma coisa MUITO rápida mesmo. O time era todo de amigos, também os atores, e a faculdade deu pra nós os equipamentos, então não posso dizer que foi difícil.

 

CC: Como foi a recepção de seu filme na mostra Cinéfondation, em Cannes, e em outros festivais? No começo você imaginava obter toda essa repercussão?

RP: Eu pensei que o filme não ia ficar em nenhum lugar, porque é uma piada das coisas que os festivais selecionam, então pensei que iam ficar irados. Foi uma magnífica surpresa como foi recebido. Todo mundo na projeção da Cinéfondation estava rindo, foi uma coisa incrível.

 

CC: Tanto em “Fábrica de Sonhos” como em “Pequeno Manifesto contra o Cinema Solene” você questiona o próprio cinema e a sociedade atual. Como você dialoga com esses temas na sua vida e nos seus trabalhos?

RP: Hahaha… Não sei se é tão assim. O que eu acho é que eu gosto de fazer coisas que partem de ideias. Não acho interessante contar uma história, mas contar uma ideia através de uma história. E, particularmente, acho que se você vai fazer um filme, a ideia tem que ser “fílmica”. Ou seja, não pode ser uma coisa que você pode pintar, ou fazer uma poesia ou um conto. Eu fiz poucas coisas (estou só começando a minha carreira), mas gosto de pensar que tudo o que eu fiz não poder ser feito em outro meio, só pode ser filme.

 

CC: Você faria algum trabalho de adaptação de um livro ou algo do tipo para um filme?

RP: Na verdade, sim. Eu leio muito muito. Sou mais leitor que cinéfilo. Gostaria muito de fazer uma adaptação.

 

CC: O que você pretende fazer em seus futuros trabalhos?

RP: Eu adoro curtas, acho que vou continuar fazendo, mas obviamente tenho pensado em começar a planejar meu longa. Mas, como ja falei, sou novo cineasta, então não quero desesperar, e quero fazer tudo no seu tempo.

 

CC: Algum conselho para novos cineastas ou jovens que estão começando a trabalhar no mercado audiovisual?

RP: Hahaha, eu sou um ninguém para dar conselhos, mas, se a gente pensa no meu manifesto, eu acho que a melhor coisa que eu posso dizer para alguém é que tem que fazer o que você gosta de fazer e não o que as pessoas gostam. Arte parte de si mesmo. Se gosta, bem, mas não tem que ser a ideia principal gostar. A ideia tem que ser que é real, genuíno.

(Guilherme Franco)

NUNCA É NOITE NO MAPA

Conexão para o real a partir do imaginário

Exibida na Mostra Brasil 4, a produção pernambucana “Nunca é Noite no Mapa” é exemplo dos novos modos de fazer cinema.

O curta de Ernesto de Carvalho repercute a reflexão sobre o papel social dos novos aplicativos. Feito a partir de imagens do Google Earth, nos conduz a olhar essas imagens de uma outra maneira, apontando observações delicadas e sutis, e deixando literalmente que as imagens falem por si.

Abre-se uma conexão para o real a partir do imaginário. A virtualidade deixa de ser um escudo e um limbo para a neutralidade social. Ernesto de Carvalho, se utilizando do cinema, destrói uma espécie de simulacro criado pelo sistema, no sentido de nos colocar cara a cara com o necessário. O filme, conforme vai passando, nos abre portas ao olhar crítico e não mais passivo ao que se vê.

Somos levados pouco a pouco a diversas cidades do país, a becos, esquinas, avenidas, fazendo algumas vezes retrospectivas arquitetônicas entre passado e presente. O mapa retrata o real, mas com um véu que não nos permite enxergar pontos minuciosos que são espelhos virtuais.

Os rostos das pessoas são apagados, mas elas continuam ali, infinitamente. Retira-se a individualidade, a pessoalidade, sendo tudo um retrato ou uma paisagem. O diretor tira esse véu do mapa, expondo o mesmo — e a nós, como espectadores, a observar o não observável.

As mídias são rodeadas de camuflagens, seja nas informações ou nas próprias imagens. Cada recorte, cada clique num segundo certeiro pode mudar todo o entendimento de uma situação. O papel do Google Maps e do Google Earth é explorar e mostrar as ruas e caminhos, colocando a câmera como o olho do espectador. Nesse caso, não há clique, não há recortes. É uma imagem infinita.

O filme desconfigura e renova o uso do aplicativo, nos possibilitando ver além do próprio mapa. Intrigante, vai abrindo novas camadas. Com um texto muito bem escrito em voz over, o diretor nos apresenta as imagens como arquivos pessoais. É pessoal, pois ele está no mapa e passa a ser pessoal também para quem assiste.

Há também sérias críticas sociais, que dão forte intensidade a essas camadas do filme. Esse novo modo de fazer cinema, se utilizando de outros recursos e mídias, vem tomando mais espaços. “Nunca é Noite no Mapa” se aproveitou desses recursos e, numa medida exata e com uma trilha sonora bem escolhida, nos chama a atenção para descobrir novos lugares e o que eles têm a nos dizer.

(Luiz Gonzaga de Souza)