Paixão Que Fere Sobre O Atirador de Facas sobre A Mulher do Atirador de Facas, de Nelson Villas Boas
por Rafaela Morais
No picadeiro de um circo, Violeta está de pijamas no centro de um alvo redondo de madeira maior que ela. Um atirador de facas, interpretado por Ney Latorraca, está na frente dela, se preparando para acertar o alvo com suas armas grandes e afiadas. O clima entre o casal é tenso, e a personagem de Carla Camurati desvia o olhar para não ver o lançamento dos objetos cortantes em sua direção. A primeira faca fica cravada na madeira do alvo a centímetros do nariz de Violeta. As outras cinco são lançadas em seguida pelo atirador, que não erra nenhuma vez.
Em outra cena, acompanhamos a personagem comprando cetim vermelho em uma loja de tecidos, enquanto as atendentes do balcão cochicham sobre o perigo que deve ser uma briga do casal. “Quando a gente briga é que fica bom”, dispara Violeta.
As cenas em questão não são a abertura de “A Mulher do Atirador de Facas”, mas descrevem bem a relação de amor apresentada no curta-metragem de Nilson Villas Boas, de 1988. No filme, acompanhamos o romance intenso e possessivo entre Violeta e o grande astro de um circo, o Atirador de Facas. A tensão caminha de mãos dadas com a malícia durante todo o filme e é esse casamento que só melhora a história.
Uma atmosfera de paixão enlouquecedora é criada com diversos recursos muito bem usados pela produção. A trilha sonora, por exemplo, cria tensão durante os momentos solitários em que Violeta deixa um recado em um gravador de voz. É o recurso que sinaliza ao espectador que essa ação é importante, vale prestar atenção.
Outro ponto alto é a câmera que explora o camarim apertado e cheio de cacarecos do casal. Com os enquadramentos bem próximos aos rostos dos atores, estamos expostos à intimidade de uma relação tão sufocante quanto o quartinho em que eles vivem.
As atuações sensacionais de Ney Latorraca e Carla Camurati prendem o espectador. Ney exprime uma paixão doentia por sua companheira, mas ele avisa que não entende como ela pode confiar tanto nele. Em algum momento, ele poderia errar a mira.
É na cena final que reencontramos outros elementos da narrativa que não estavam explicados. O Atirador de Facas encontra o recado de sua amada no gravador e descobre que será pai. Ele entra no picadeiro para sua apresentação e Violeta está vestindo o cetim cor de sangue que comprara na loja de tecidos. Imaginamos, nesse ponto, que o Atirador não suportaria dividir a atenção de Violeta com a criança que está na barriga dela. E talvez ela saiba disso. Com uma lágrima escorrendo no rosto, o atirador lança sua primeira faca e os créditos sobem. A tela preta anuncia o final aberto e deixa a dúvida sobre o destino de Violeta. O que segue daí é uma infinidade de desfechos possíveis, todos imaginados pelos espectadores e suas experiências individuais com o filme.
Assistir a este filme dentro de uma mostra que homenageou Zita Carvalhosa, idealizadora e fundadora do Kinoforum, pesou ainda mais para a avaliação positiva do filme. A reação do público pode ser parâmetro de avaliação e, neste caso, a plateia era feita de amigos, colegas de trabalho e admiradores de Zita que estavam presentes para aplaudir o ótimo cinema que ela produziu.