Territórios de extração – sobre “A pele do ouro”
por Ohana Abreu
Em “A pele do ouro“, de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo, a violência não está apenas no que se conta, mas naquilo que se extrai. Partindo dos diários de Patri, sobrevivente da exploração sexual nos garimpos das terras Yanomami, o filme aproxima dois territórios submetidos à mesma lógica: a terra e o corpo feminino. Ambos são penetrados, revirados, negociados e abandonados depois que deles se retira aquilo que possui valor.
Patri narra uma trajetória em que as violências começam ainda na Venezuela durante sua infância e atravessam a fronteira com ela. No Brasil, torna-se prostituta para sobreviver. “Escolha é para quem tem opção, eu não tive”, afirma desmontando qualquer leitura moral sobre sua vida. O que o filme revela é uma economia da vulnerabilidade, onde falta dinheiro e proteção, aquilo que se apresenta como oportunidade pode rapidamente assumir a forma da dívida, da exploração e do cárcere.
No garimpo, Patri reconhece nas companheiras uma rede de cuidado possível. Diante de um sistema organizado pela exploração, a amizade entre mulheres surge como tecnologia de sobrevivência, mas é escrevendo que ela produz um espaço próprio. Seus diários não são somente testemunhos, escrever e desenhar tornam-se formas de impedir que sua experiência seja novamente apropriada por outros, para existir onde o silêncio da imensidão ameaça engoli-la.
A escolha formal de nunca entregar seu corpo inteiro à câmera radicaliza esse gesto. Vemos fragmentos, cicatrizes, deslocamentos. Ao preservar seu rosto, o documentário recusa transformar uma sobrevivente em imagem consumível da própria violência. A fragmentação deixa de significar ausência, é Patri quem determina quanto de si pode ser visto.
Quando ela aproxima seu corpo da natureza devastada pelo garimpo, fica explícita sua dimensão política. A mineração ilegal e a exploração sexual não aparecem como violências paralelas, mas como manifestações de uma mesma lógica colonial de conquista, existem corpos e territórios considerados disponíveis ao saque. Escapar não apaga as cicatrizes, Patri as transforma em arquivo. Aquela que escrevia para sobreviver passa a narrar para denunciar e faz da própria pele um território que já não pode ser tomado.